Jornalismo de qualidade é fortalecido na crise. Mas a fadiga da notícia continua a ameaçar 

Por Luciana Gurgel | MediaTalks Londres 

Poucos setores sagraram-se vencedores na crise mundial desencadeada pelo novo coronavírus. Abalado por golpes como fechamento de títulos, tiragem reduzida, suspensão de edições impressas, eliminação de programas e demissões até em grandes veículos globais, o setor de mídia não está entre eles.

Mas enquanto os departamentos financeiros de grupos editoriais fazem malabarismos para equilibrar as contas diante das perdas, nas redações a história é outra. O jornalismo de qualidade saiu ganhando.

Em um momento decisivo da história, quando informação confiável converteu-se em questão de vida ou morte, a imprensa recuperou ou reforçou sua credibilidade. A Covid-19 está deixando um legado de confiança que, se bem aproveitado, pode ajudar a virar um jogo que se apresentava duro para ela.

Confiança em queda antes do novo coronavírus 

A oportunidade involuntariamente oferecida pela Covid-19 chegou em boa hora. Pesquisas vinham apontando declínio consistente nos índices de confiança na imprensa. Uma delas é a da agência Edelman. A edição 2020 do relatório anual Edelman Trust Barometer, publicada em janeiro, trouxe resultados preocupantes.

Elaborado a partir de uma extensa pesquisa com mais de 34 mil respondentes em 28 países, o estudo parte da premissa de que as pessoas estabelecem relação de confiança com instituições com base em dois atributos: competência (cumprir promessas) e comportamento ético (fazer a coisa certa e trabalhar para melhorar a sociedade). Segundo o relatório, as instituições mídia e governo foram vistas como incompetentes e antiéticas.

Se serve de consolo, tampouco instituições como empresas e ONGs eram àquela altura vistas como competentes e éticas. Os setor empresarial foi o que mais se destacou em competência, detendo segundo a Edelman, com vantagem de 54 pontos sobre o governo como uma instituição que é boa no que faz (64% contra 10%). As ONGs lideraram o comportamento ético em relação ao governo (com uma diferença de 31 pontos) e ao setor empresarial (25 pontos).

O estudo identificou também um sentimento de injustiça em relação às instituições. Nesse caso, a imprensa até que não se saiu tão mal em comparação a governo e setor empresarial. Ainda assim posicionou-se bem distante das ONGs.

Qualidade da informação foi outra vulnerabilidade diagnosticada pela pesquisa da Edelman. Para mais da metade dos respondentes, o noticiário estava contaminado por informações sem credibilidade. E 3/4 deles temiam o uso de notícias falsas como arma.

 

Então veio a pandemia, trazendo a oportunidade para o jornalismo

De uma hora para a outra o mundo se transformou. Medo de uma doença desconhecida. Medidas de isolamento social inéditas na história. Incerteza quanto aos negócios, aos empregos e às coisas simples da vida, como ir à escola, viajar de férias ou visitar parentes.

A severidade do novo coronavírus sobre a sociedade mundial ajudou a mudar percepções. O público precisou escolher em quem confiar para se informar sobre o que fazer diante do caos. E voltou-se para a imprensa, sobretudo para as organizações mais tradicionais. Os exemplos se multiplicam: BBC, New York Times, Clarín, El País, TV Globo, RAI. Todos ganharam audiência, consequência da busca de um porto seguro na hora da crise.  

“Confiança não vem de graça, e você não pode simplesmente comprá-la ou construí-la de um dia para o outro. É uma relação de confiabilidade, transparência, humildade e serviço ao público. Você ganha confiança ao se comportar bem ao longo do tempo. Organizações jornalísticas e profissionais de imprensa precisam pensar em seu trabalho como um relacionamento que agrega valor ao público, e não apenas que entrega conteúdo. Isso pode significar usar humor ou novos formatos, mas acima de tudo significa agir de forma responsável e que responda aos anseios da sociedade.”

Charlie Beckett . Jornalista, fundador e diretor-geral do Polis, think tank de jornalismo da LSE – London School of Economics

A Edelman capturou a virada em nova pesquisa realizada em março, no auge da cobertura de imprensa sobre a pandemia. A mídia tradicional alcançou o nível mais elevado de confiança desde que o estudo é realizado. As mídias sociais, em que pese o alto volume de acessos, cresceram em relação a janeiro abaixo do percentual do jornalismo.

“A busca por informações confiáveis e precisas relacionadas à pandemia elevou a confiança nas fontes de notícias ao seu mais alto grau, com a mídia tradicional tendo o maior ganho. A confiança da mídia em geral ainda é prejudicada pela baixa confiança nas redes sociais, com 65% das pessoas preocupadas com a divulgação de notícias falsas. As pessoas querem informações confiáveis de fontes credenciadas, como cientistas, médicos e profissionais de saúde.”

Richard Edelman, CEO da agência Edelman

 

Redes sociais, maior gap entre uso e credibilidade

A empresa de pesquisas britânica GlobalWebIndex tem feito desde o início da pandemia um monitoramento de intenções de consumo, expectativas diante da crise, consumo de notícias e confiança nas fontes, por meio de investigações mensais em 17 países. E registrou a contradição entre acesso e credibilidade.

Os dados da pesquisa feita entre 31 de março e 2 de abril, período mais crítico do pânico causado pela pandemia, são reveladores das atitudes do público diante da crise. Os respondentes declararam estarem informando-se mais sobre o coronavírus por canais de notícias na TV (60%), websites (55%) newsletters (45%), informes do Governo (50%) e mídias sociais (47%). Os respondentes podiam votar em mais de uma opção.

Quando colocada a pergunta sobre confiança o quadro mudou.  As mídias sociais despencaram para 14% − maior gap entre uso e credibilidade − e o jornalismo também caiu, enquanto informes do Governo lideraram, com os mesmos 50% dos que os apontaram como fonte de informação.

Também em abril, uma análise específica da empresa sobre consumo de mídia (para todas as finalidades) registrou a relevância do jornalismo na hora da crise. Canais de notícias ficaram em quarto lugar no quesito confiança, enquanto notícias obtidas em blogs e compartilhadas por redes sociais ocuparam o 11º e 12º lugares.

A tendência manteve-se depois dos primeiros meses da pandemia. O Ofcom, órgão regulador das telecomunicações no Reino Unido, revelou em agosto que 45% consumiam notícias por meio de mídias sociais no país, uma queda de 49% em relação ao ano passado. As redes mais utilizadas são Facebook (76%), Twitter (37%) e  Instagram. Mas o Ofcom detectou declínio no engajamento, com proporção menor de pessoas clicando ou compartilhando conteúdo.


Luciana Gurgel  é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, onde assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É diretora-executiva do MediaTalks by J&Cia. 

luciana@jornalistasecia.com | @lcnqgur 

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