Na Argentina, audiência de versões digitais dos grandes jornais dispara, mas queda na receita agravada pela crise econômica preocupa 

Monica Yanakiew, de Buenos Aires

Na corrida  por noticias da pandemia, os que mais ganharam na Argentina foram os sites dos dois maiores jornais do país, Clarín e La Nacion, e o jornal digital Infobae. O público deles cresceu em média 50%, segundo Daniel Dessein, presidente Comissão de Liberdade de Imprensa da Adepa (Asociación de Entidades Periodísticas Argentinas), que reúne 175 meios argentinos.

Mas o número de argentinos que se informou pelas redes sociais também aumentou, passando de 71% a 78%, entre janeiro e abril de 2020.

É ainda cedo para medir o impacto da pandemia nos meios de comunicação, segundo Eugenia Mitchelstein, professora de comunicação da Universidade de San André. Ela dirige, junto com Pablo Boczowky, o Centro de Estudos sobre Meios e Sociedade (Meso), fundado por San Andrés e pela Universidade Northwestern, em Chicago. O centro colabora com o o relatório sobre jornalismo digital do Reuters Institute/Universidade de Oxford. 

Mas uma coisa é certa: o crescimento de Instagram. Nesta pandemia, 49% dos jovens argentinos entre 18 e 24 anos usaram Instagram para se informar sobre o coronavirus.

    “Nunca houve tanta audiência, e tanto tempo para consumir noticias como nessa pandemia – mas isso veio acompanhado por uma crise econômica, que resultou na queda da arrecadação”, diz Pablo Boczkovski, professor de Ciências da Comunicação na Northwestern University. “E tanto o Estado quanto o setor privado terão menos dinheiro para investir em publicidade, principal sustento dos meios de comunicação”.

       Segundo ele, a tendência é que sobrevivam à crise os meios mais fortes, que têm mais recursos, e com isso haverá uma concentração: “A tendência à maior concentração já está acontecendo no mundo digital. As pessoas usam o mesmo buscador (Google) e as redes mais usadas pertencem ao mesmo dono (Facebook comprou Instagram e Whatsapp)”.

Impressos − Perdedores e sobreviventes

 As versões impressas, que já vinham minguando, perderam na Argentina por vários motivos, além da incapacidade de competirem com a televisão e a internet. Um deles foi o medo do leitor de ser contagiado por um vírus desconhecido ao levar para casa um jornal que passou por varias mãos – e não podia ser desinfetado, como as compras do supermercado.

Outro motivo foram os limites ao transporte e à circulação. Segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC), a circulação dos grandes jornais de Buenos Aires e do interior caiu em média entre 15% e 20% logo após o início da pandemia  Mas o maior impacto foi causado pela queda na publicidade.Segundo Dessein, essa queda afetou a todos.

“Os sites dos jornais e dos meios de comunicação em geral viram crescer a sua audiência em 50%, mas a publicidade caiu na mesma proporção: entre 40% e 50%”, afirmou.

 Os jornais que menos impacto sentiram foram aqueles que já tinham investido num sistema de assinatura digital. La Nacion foi o pioneiro e já tem 320 mil assinantes, enquanto que Clarín tem 300 mil. Segundo Dessein – que também é membro do board do World Association of Newspapers (Associação Mundial dos Jornais) –, a Argentina é o país da América Latina com mais assinantes digitais.    

Em comparação com outros países da América Latina, a indústria jornalística argentina sofreu menos. O caso mais rumoroso foi o do fechamento da revista Pronto (de celebridades do mundo do espetáculo). Era a mais vendida no país: 39 mil exemplares semanais. 

No final de março, menos de duas semanas depois do anúncio da quarentena, os donos anunciaram que deixariam de imprimir a Pronto, mantendo apenas a versão digital. Além dos 93 funcionários que perderam o emprego, dezenas de repórteres e fotógrafos que colaboravam  como frilas ficaram sem trabalho. 

 Os donos da revista atribuíram o fechamento ao vírus (que reduziria o número de pessoas comprando em bancas) e a uma decisão do sindicato de imprimir apenas as publicações “essenciais” para manter a população informada. Fofocas sobre artistas e celebridades não entravam nessa categoria.

 Os empregados da Pronto emitiram um comunicado rechaçando a decisão e acusando os donos de aproveitar a pandemia para cortar gastos. “Está claro que uma revista que tem 24 anos de existência, que é a número um do país há mais de uma década, e que hoje vende entre 35 e 40 mil exemplares por semana, não pode apresentar em sete dias uma suposta instabilidade que resulte no fechamento”, diz o texto. Segundo eles, a estratégia da empresa era usar a Covid-19 como desculpa para demitir agora, para depois publicar a revista com pessoal terceirizado.

Salvo o caso da Pronto, em geral os jornalistas argentinos que trabalham com carteira assinada mantiveram seus empregos e salários. Um decreto do governo proibiu demissões e reduções salariais até o final do ano – mesmo que seções inteiras desaparecessem. Em compensação o governo ofereceu arcar com metade da folha de pagamento das empresas que demonstrassem queda de faturamento. 

   “As redações tiveram que se adaptar rapidamente a um esquema em que a grande maioria dos jornalistas trabalha de casa”, disse Alessandro Alfie, que escreve sobre meios de comunicação para o jornal Clarín.  

As redações também se reorganizaram num mundo sem jogos nem teatro − os repórteres que cobriam esporte ou espetáculos foram deslocados para ajudar na cobertura de áreas que cresciam, como saúde. “Como as pessoas tinham mais tempo para ler, os jornais publicavam suplementos de crônicas, cultura e educação”, diz Dessein.

Leia também o relato das correspondentes em outros países

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