“A pandemia mostrou que a diferença entre jornalismo profissional e fake news pode ser a diferença entre a vida e a morte”

Na live de lançamento do MediaTalks, o Diretor de Redação da Folha de S.Paulo e do Agora, Sérgio Dávila,  falou sobre a experiência própria com a Covid-19, sobre o trabalho remoto da equipe da folha e sobre alfabetização midiática para combater fake news. 

Se você perdeu a transmissão ao vivo, confira o vídeo com a participação de Sérgio Dávila, e um resumo dos principais pontos discutidos em sua apresentação.


“Começando pelas lições desses seis meses da pandemia, ela afetou o jornalismo em todos os seus processos e me afetou pessoalmente, porque fui infectado e desenvolvi a doença.

Foi muito interessante essa experiência pessoal, que não recomendo para ninguém, porque pude sentir na pele literalmente o que eu editava e pautava para o público.

É muito diferente escrever, ler e editar em tese e fazer isso depois de ter passado pela doença. Fiquei alguns dias fora de combate, já estou bem, mas sigo com anosmia, que é a ausência de olfato. Isso afeta bastante o dia a dia, e já me levou seis quilos nessa batalha, pois tira a vontade de se alimentar. Portanto, a crise afetou o jornalismo e também os jornalistas, como no meu caso.

Sobre polarização, fake news e jornalismo profissional 

Algumas lições que podemos tirar dessa pandemia, que ainda está em andamento, é que temos vivido, principalmente nos últimos dois, três anos um ambiente de intensa polarização política no mundo e no Brasil. 

Assim, as pessoas estavam acostumadas a consumir e distribuir notícias, sabendo ou não que elas eram fake ou duvidosas, de acordo com suas preferências e convicções. Então, se alguém recebia uma notícia que não parecia muito confiável, mas que reforçava suas convicções políticas, ela não tinha muito problema em postar em suas redes sociais e distribuir nos seus grupos de WhatsApp e assim por diante. 

A pandemia chega para dizer que a diferença entre o jornalismo profissional e as fake news pode ser a diferença entre a vida e a morte. 

Posso parecer dramático nessa afirmação, mas vou dar um exemplo concreto, dos que ouviram o presidente Trump falar numa entrevista coletiva no fim de abril que ingerir desinfetante destrói o vírus em um minuto. 

A partir dessa falsa informação, os órgãos de imprensa profissional rapidamente colocaram desmentidos. Quem checou essa informação no filtro do jornalismo profissional se deu bem. Quem não checou e bebeu desinfetante se deu mal.

Somente nas 18 horas seguintes à fala, no estado de Nova York, houve 30 casos de possível exposição a desinfetantes, um número absolutamente anormal em qualquer tempo. Vejam o poder de uma fake news que não foi filtrada pelo jornalismo profissional.

As pessoas percebem então que uma coisa é consumir informações duvidosas num ambiente de polarização política, mas se exige muito mais responsabilidade e empenho do consumidor quando se está numa situação de pandemia.

Sobre o aumento de audiência durante a pandemia 

O resultado disso é que os principais sites do jornalismo brasileiro bateram recordes de audiência durante esse período porque as pessoas acorreram a esses sites confiáveis para ter esse filtro. O site da Folha teve seu recorde histórico em abril, com 70 milhões de visitantes únicos, o que corresponde a mais da metade da internet brasileira.

E o aumento não foi só na audiência, mas também no número de assinaturas. As novas assinaturas digitais vêm mantendo um ritmo desde o começo da pandemia muito maior do que no período pré-pandemia. Em alguns dias, esse ritmo chega a dez vezes mais do que num dia normal. São geralmente pessoas jovens que se tornaram adultas acostumando-se a pagar por conteúdo.

Se olharmos para trás, há 20 anos consumir filmes era baixar conteúdo pirata da internet e ouvir música era ir para a gigante Napster, que tinha pirateado todo o acervo da indústria musical e você ouvia de graça. 

Hoje paga-se um fee mensal para a Netflix, e outros, para ver conteúdo de qualidade e também para o Spotify, e outros, para ouvir música de qualidade. E essa geração começa a perceber que tem de pagar também para consumir informação de qualidade. 

Na verdade, esse modelo da Netflix vem sendo praticado há décadas pelos jornais e revistas, e há menos tempo pelos sites. São as assinaturas e os memberships, em que você paga um valor mensal em troca de um conteúdo no qual você confia, ou que tem qualidade, ou que te interessa por algum motivo. E esse ritmo de assinaturas a gente viu crescer, e segue crescendo, ou se mantém na pandemia.

O The New York Times, para citar a principal referência do mercado mundial, estabeleceu como meta chegar a 10 milhões de assinaturas em 2025. Chegou a 6 milhões no começo deste ano.

Eles provavelmente baterão essa meta antes do esperado. Aí alguém dirá: bom, mas nem todos os jornais são o New York Times. Sim, mas nem todos os streamings são a Netflix. Mas vejam como há players surgindo a cada dia e como há clientes para eles, assim como há e haverá leitores para diversos tipos de veículos do jornalismo profissional.

Sobre o trabalho em casa 

A segunda lição da pandemia é que o jornalismo profissional não é uma reunião de pessoas no mesmo espaço físico. Na Folha, mais de 95% da redação estão em home office. Adotamos esse modelo a partir do meio de março e até o fim daquele mês praticamente todo mundo estava em casa. 

O site continuou entrando no ar, as reportagens continuaram se sucedendo, os vídeos continuaram sendo captados e editados, os podcasts continuaram sendo gravados, o produto impresso continuou sendo montado, produzido e entregue nas casas das pessoas. A lição é que o jornalismo profissional é apurar uma informação seguindo uma série de técnicas e guias éticas, não importando o local e a maneira de apuração. 

Concordo que se perde muito estando longe do ambiente da redação. A conversa no cafezinho, a discussão da pauta e saber o que o colega está fazendo, isso se perde muito. A ideia é voltar presencialmente quando houver condições. 

Mas em casos de hecatombes, como essa pandemia, havia uma dúvida inicial: é possível fazer jornalismo profissional e manter a qualidade do produto que vínhamos entregando nessas condições? A resposta, seis meses depois, é que é possível. Nós vamos considerar dois gatilhos para determinar a volta presencial à redação: a volta às aulas ou a vacinação em massa.

Quanto ao balanço de problemas surgidos nesses seis meses de pandemia, tivemos um aumento dos casos de problemas psicológicos, de ansiedade, de problemas mentais. O jornalismo é uma profissão tensa e intensa, de bastante pressão, de muita exigência, de uma corrida contra o tempo e contra os erros que vão se apresentando, contra as falsas dicas. 

Com tudo isso, em condições normais já é muito estressante ser jornalista. Ainda mais de um jornal como a Folha, que se cobra muito e tem muita autocrítica interna. Sob pandemia, essa pressão é potencializada, e vimos o aumento de profissionais precisando de ajuda.

Estamos tentando ajudá-los da melhor maneira possível. É um efeito colateral de certa maneira previsível, mas o fato é que, com centenas de profissionais em casa, tem que se lidar com esse problema de maneira mais efetiva, numa escala maior. 

Sobre o WhatsApp

Outro problema, que na verdade já existia mas foi realçado pela pandemia, não são nem tanto as redes sociais, mas o da rede anti-social WhatsApp, do Facebook. 

Se o jornal é praça pública, onde as ideias e seus contraditórios são debatidos abertamente e aleatoriamente, permitindo o contato com ideias das quais você nem sabia da existência e nem sabia que precisava saber, as redes sociais são um condomínio, em que você tem que entrar num lugar fechado, onde você deve seguir as regras desse condomínio e onde as ideias pré-existentes tendem a ser reforçadas ou manipuladas.

E o WhatApp é a cobertura desse condomínio, onde as ideias só entram se o dono e seu grupo de amigos estiverem de acordo. Esse dono dá acesso a toda sorte de vendedores de ilusões, que não sofrem qualquer tipo de escrutínio público.

Uma fake news divulgada num grupo fechado desses pode demorar dias ou semanas para que alguém que está de fora saiba e cheque se é verdadeira ou não. 

Um exemplo prático recente, de 2018, aconteceu durante as eleições, na greve dos caminhoneiros. Hoje sabemos que parte do movimento foi alimentado por fake news, que ajudaram a mobilizar milhares de profissionais. Discuta-se ou não se as reivindicações eram pertinentes ou não, o fato é que na sua origem havia muita fake news.

Quando a mídia e a sociedade souberam, já era tarde demais. A greve já estava instalada e acabou beneficiando um dos candidatos, que acabou sendo eleito, o presidente Jair Bolsonaro.

Essa rede anti-social, da qual o Brasil é o segundo maior cliente mundial, só perdendo para a Índia em número de usuários, vinha ganhando importância e impactando a vida do País. Esse impacto cresceu durante a pandemia, com as pessoas em casa consumindo mais esse tipo de informação.

Vejam o paradoxo: ao mesmo tempo em que aumentou o consumo de notícias de saúde do jornalismo profissional, também aumentou o consumo de fake news, porque o ambiente é propício para que isso ocorra. 

Sobre fake news e alfabetização midiática

As fake news são um desafio que não se sabe muito bem como enfrentar. Não há fórmula, mas há várias discussões saudáveis, algumas erradas no meu ponto de vista, algumas com excesso de tentativa de regulação e de criminalização, que podem atingir a liberdade de expressão de alguma maneira. 

Mas é bom que haja esse caldo de discussão no Legislativo, na sociedade, na academia, para que cheguemos a um denominador comum que coíba o efeito nefasto dessas fake news. Não parece haver dúvida de que é necessário responsabilizar as empresas e os indivíduos que lucram econômica e politicamente com a feitura e a divulgação dessas fake news.

Sou um entusiasta da alfabetização midiática. A Folha participa de iniciativas assim. Há uma coluna sobre isso no jornal.

Temos muita preocupação em saber se nossas crianças estão aprendendo corretamente matemática, português ou história, mas não nos preocupamos se as escolas estão ensinando a navegar na internet, a estar nas redes sociais e a interagir nos diversos aplicativos que existem. Isso é fundamental.

Primeiro, para a segurança das nossas crianças. E, segundo, para a promoção desses futuros consumidores de notícias. Se a gente começar a formar junto da alfabetização tradicional a alfabetização midiática,   vamos ter uma geração muito mais critica, cética no bom sentido, que não vai ser tão vítima das fake news.

Há muitas possibilidades de colaboração conjunta a serem feitas no futuro. Acho que o consórcio da Covid-19 é um bom pontapé inicial para essas novas colaborações.

A crise econômica do Brasil é anterior à pandemia, que veio exacerbar esse ambiente recessivo. A crise da indústria jornalística estava instalada bem antes da pandemia. O modelo de negócio estava numa encruzilhada e a pandemia também exacerbou isso. 

Sobre crise e modelos de negócio 

A questão agora é: a audiência aumentou, os assinantes aumentaram, mas os anunciantes sumiram. Passada a pandemia, qual vai ser o modelo de negócio que vai prevalecer? Acho que é o do New York Times, com faturamento pesadamente baseado nos assinantes digitais. É um modelo vencedor.

Acredito que nem todos atravessarão e chegarão ao lado de lá desse deserto. A Folha tem todas as condições objetivas e está preparada para isso.

E os que chegarem estarão consolidados e consagrados como órgãos de jornalismo profissional por excelência. Terão passado pela crise econômica, pela crise do modelo de negócio e pela crise da pandemia, e sobreviverão por muito tempo. 

 

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1 comentário em “MediaTalks – Live com Sérgio Dávila (Folha de S.Paulo)”

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