TikTok: Pode estar nele o futuro da indústria de notícias? 

 

Por Luciana Gurgel | MediaTalks, Londres 

 

Há o dia da caça e o dia do caçador. Demonizadas como inimigas número um da imprensa, as redes sociais rumam a passos largos para se converterem em tábua de salvação para uma indústria que vê seus usuários envelhecerem e as gerações mais novas adotarem comportamento diferente em relação ao consumo de notícias. Captar a atenção delas virou questão de sobrevivência para os que desejam continuar relevantes daqui a 10, 20, 30 anos.

Em artigo publicado no dia 23 de setembro – com o provocativo título “Love or Hate?”- a empresa belga Twipe, especializada em tecnologias para jornalismo digital, enumera iniciativas bem-sucedidas de veículos tradicionais. Vários estão nos já veteranos Instagram e YouTube. E começam a tomar conta do aplicativo mais juvenil de todos, o TikTok, celebrizado por vídeos curtos com dublagens e coreografias postadas pela e para a turma da geração Z, formada pelos que nasceram entre 1995 e 2010. 

Criado pela empresa chinesa ByteDance em 2017, o TikTok decolou de vez ao fundir-se no ano seguinte com o aplicativo musical.ly. Esteve recentemente no centro de uma controvérsia geopolítica ao ser ameaçado de banimento nos Estados Unidos pelo presidente Trump, ideia considerada também por outros países, como o Reino Unido. Conseguiu safar-se em solo americano ao anunciar um acordo para operação conjunta com a Oracle em parceria com a Wal-Mart.

Os indianos não tiveram a mesma sorte. Lá o TikTok foi banido em junho, junto com outros 58 aplicativos de origem chinesa. 

A suposta atuação como braço de espionagem chinesa não abalou o ânimo dos usuários. Eles acorreram em massa ao aplicativo sobretudo logo após a pandemia trancafiar boa parte do mundo em casa.

Segundo Craig Chapple, estrategista de aplicativos móveis da empresa de monitoramento de aplicativos Sensor Tower, o TikTok registra mais de 2,4 bilhões de downloads no mundo, incluindo os da versão chinesa do app, Douyin. 

“O Brasil acumula 132,7 milhões de downloads em Apple Store e Google Play, número que não inclui os usuários que baixaram de outras lojas de aplicativos Android”, informou Chapple ao MediaTalks.

A agência de marketing de influência americana Mediakix mostrou em um relatório que a plataforma teve no primeiro trimestre deste ano o maior crescimento dentre todos os aplicativos, com 315 milhões de downloads. E cresceu 51% nos Estados Unidos entre janeiro e agosto, a despeito do risco de banimento.

“O TikTok está provocando um renascimento de clipes de vídeo curtos – só que agora ainda mais interativo, colaborativo e totalmente viciante“, diz o relatório da Mediakik.

Viciante não é exagero, à luz das estatísticas. O relatório apresenta números impressionantes, alguns surpreendentes. Os usuários abrem o aplicativo em média 8 vezes por dia, permanecendo conectados por 45 minutos. O TikTok ganhou mais adeptos em um mês do que o Instagram em todos os trimestres de 2019.

Seria difícil o presidente Trump conter essa onda, que se apresenta como um caminho obrigatório para o marketing de influência.A questão para a indústria de notícias é como aproveitar as oportunidades oferecidas pelo TikTok como parte do inevitável processo de modernização, digitalização e conquista de audiência jovem.

Para o jornalista britânico Chris Stokel-Walker, autor de um livro examinando o fenômeno do YouTube, que agora se debruça sobre o TikTok, não há ainda jornalismo formal na rede de origem chinesa. Mas ele observa o potencial com expectativa favorável:

“Ainda não vimos jornalismo real no TikTok. Mas quem conseguir encontrar o caminho pode desbloquear a próxima geração de consumidores de notícias”.

leia entrevista completa com Stokel-Walker-Walker para o MediaTalks. 

Experimentação e fidelidade

O valor do TikTok para cativar jovens que se afastam cada vez mais das fontes tradicionais emerge como um uma grande oportunidade mercadológica. Muitas pessoas maduras criaram o hábito de jornal ou assistir ao noticiário na TV lendo o exemplar que os pais assinavam ou sendo passivamente expostos ao canal sintonizado pelos mais velhos por mera falta de acesso a outras opções.

A tecnologia deu a crianças e adolescentes o poder que gerações anteriores não tiveram: o de escolher pessoalmente suas mídias preferidas, de entretenimento a notícias. O consumo de vídeos curtos pode ser a porta de entrada para conteúdos mais aprofundados naqueles canais que forem eleitos para fazer parte do seu universo de hábito e confiança.

Em artigo publicado no The Guardian sobre como as crianças estão mais bem-informadas e politizadas publicado à época dos protestos raciais nos Estados Unidos, a colunista Zoe Williams observou:

“As famílias costumavam ficar sentadas em volta da TV e assistir às mesmas notícias. Agora todos recebemos nossas notícias separadamente: eu pelo Twitter, as crianças pelo TikTok e meu pai por rádios e jornais”.

O TikTok tem sido a aposta de vários veículos que já se animaram a estabelecer presença institucional na rede, muitos deles começando com videos mostrando bastidores da redação. Mas há também iniciativas de entrega de conteúdo, tanto por organizações quanto por jornalistas individualmente.

A Twipe cita alguns dos que já apostaram no aplicativo: The Washington Post, Le Monde, Corriere Dello Sport. Também estão lá a BBC, NBC, USA Today e The Daily Telegraph, entre muitos outros pelo mundo. 

No Brasil, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo figuram entre os veículos atentos a essa oportunidade. Ambos já contam com perfis na rede. O do Estadão exibe vídeos com repórteres explicando algum tema e chamando para uma matéria. E também clips estrelados por entrevistados, como a surfista Maya Gabeira, convidando para ler a reportagem sobre o recorde de onda gigante que ela quebrou.

 

TikTok nas escolas de jornalismo

O uso do TikTok pela imprensa começa a entrar no radar de cursos de jornalismo. A The School of Journalism, associada à Plymouth Marjon University e sediada em Manchester, publicou um artigo explicando o que é a rede – descrita como uma combinação do aplicativo Musical.ly combinado com o Vine –  e como os que produzem notícias podem utilizá-la.

“O TikTok é uma forma de jornalismo móvel, uma ótima maneira de compartilhar notícias do momento. E também pode ser usado para transmitir o que acontece nos bastidores da redação”.

O case do TikTok guy do Washington Post

O exemplo mais notório do uso do TikTok por uma organização de mídia, citado em praticamente todos os artigos e estudos sobre o tema, é o do The Washington Post, lançado em maio de 2019. O TikTok guy do sisudo jornal  é um sucesso. Tem mais de 700 mil seguidores, uma demonstração do potencial dessa rede mesmo para impressos centenários. Tem sido apontado como referência para a indústria. 

Ele combina as duas vertentes sugeridas pela The School of Journalism: bastidores da redação e notícia. A assinatura do perfil é curiosa: we are a newspaper.

Diferentemente de outros veículos, que alternam autores dos vídeos, o Post investiu em um personagem, Dave Jorgenson, que ficou conhecido como o “TikTok guy”.

Dave não é jornalista, e sim um produtor de vídeos. Tem formação em cinema e trabalhou com comédia. Em seu perfil no LinkedIn, descreve-se assim: “Imagine ser o cara que edita os vídeos do Washington Post no TikTok”, expressando bem o inusitado papel que desempenha.

No início, o objetivo era mostrar os bastidores da redação, como explicou Dave em uma entrevista ao podcast Reliable Source da CNN em de 2019.

“Sempre achei que nossa redação está repleta de pessoas engraçadas, mesmo que sejam meio nerds. Esse é o nosso humor. Procurei refletir isso nos vídeos que publicamos todos os dias. O objetivo é usar a conta para construir confiança com os jovens telespectadores do TikTok e ajudá-los a se familiarizar com a redação do Post. “

Ele disse na entrevista que cada vídeo leva cerca de quatro horas para ser produzido, incluindo meia hora dedicada a engajar os comentaristas após a publicação. E que o envolvimento com os seguidores é a parte mais importante do processo.

Com audiência já consolidada, o perfil soube aproveitar a pandemia. Dave passou a mostrar o cotidiano do confinamento, aumentando ainda mais a audiência em um momento em que rir de alguma coisa tornou-se tão desejável.

Hoje o canal exibe um mix de vídeos sobre bastidores da redação e sobre o noticiário, oferecendo boas lições sobre como contar histórias complexas de forma compacta.

Um exemplo é o clip resumindo em menos de um minuto a revelação pelo concorrente New York Times sobre os baixos valores de imposto de renda pagos pelo presidente Donald Trump Ele abre perguntando: o que é notícia hoje? E narra a história em poucas palavras, o suficiente para quem não tem paciência para textos longos.

Os embaixadores do BuzzFeed no TikTok

Não apenas jornais centenários em busca de modernização, mas também nativos digitais, estão enxergando no TikTok a oportunidade de engajar a geração Z. O Buzzfeed é um deles. Em fevereiro, abriu vagas para três adolescentes a serem “coroados”com o título de embaixadores dedicados a explicar e comentar as eleições presidenciais americanas, como noticiou o Neiman Lab.

O perfil do jornal digital no aplicativo apresenta vídeos estrelados pelos embaixadores, alguns superando 10 mil visualizações.

ByteDance de olho nos editores de notícias 

Segundo a Twipe, o número de organizações de mídia experimentando o TikTok provavelmente também aumentará nos EUA, já que a plataforma anunciou recentemente um fundo de US$ 1 bilhão para incentivar a postagem de veículos em seu espaço. 

Embora ainda não esteja claro quantos editores farão parte do programa, ou quanto cada um receberá, sabe-se que se destina a organizações que já têm presença no TikTok.

Para se qualificar, eles precisam ter pelo menos 10.000 seguidores no TikTok e ter recebido 10.000 visualizações nos últimos 30 dias. Por meio de seu fundo anterior, a TikTok pagou editores, incluindo UpWorthy e a revista Self, para postar conteúdo educacional. Durante um período de 7 semanas, os editores participantes publicaram 35 postagens por US$ 50.000.

Quer conhecer mais iniciativas? Confira outras estrelas do jornalismo no aplicativo e a presença de grandes organizações de mídia 

Sophia Smith Galer,da BBC, usa a plataforma para notícias, dicas de idioma e tendências em redes sociais. Ela mostra também os bastidores de gravações em estúdio. 

Max Foster, da CNN,  baseado em Londres,  ultrapassou 196 mil seguidores, com vídeos bem curtos e produzidos, usando recursos como a dublagem que é marca registrada da plataforma. Mas também posta assuntos sérios, como uma curta entrevista com Andre Tegnel, principal autoridade médica da Suécia. 

Emma Bentley da BBC News,registra seu trabalho diário como cinegrafista, mostra bastidores das matérias e clips sobre a carreira na BBC.

NBC: Tem 669 mil seguidores e aposta em vídeos hard news, aproveitando as imagens de suas coberturas, nem sempre com apresentadores. 

USA Today:Exibe vídeos bem informativos sobre atualidades como a Covid-19 e as eleições e já ultrapassou 769 mil seguidores. O clip com duas amigas conversando sobre a denúncia de evasão fiscal contra Donald Trump é um exemplo de como contar uma história complicada de forma simples. 

The Daily Telegraph: videos educativos, explicando temas como cultura do cancelamento. Preocupou-se em adotar a diversidade entre os apresentadores, com negros e islâmicos.

Animou-se a entrar também?

Veja aqui algumas dicas. 

  • Você deve encontrar um equilíbrio entre obter inspiração de outras pessoas e criar algo único.
  • Assista a muitos conteúdos do TikTok antes de fazer o seu. Conforme você assiste aos vídeos, decida como o que você deseja dizer pode se encaixar no conteúdo existente. Talvez haja uma música viral para a qual você possa mudar a letra.
  • Talvez – seguindo os passos de Max Foster da CNN – você possa representar letras de músicas com legendas engraçadas, explicando aspectos de uma matéria ou do seu trabalho.
  • O melhor conteúdo jornalístico ensina algo aos telespectadores sem que eles percebam. Fale com os usuários do TikTok para descobrir quais notícias eles querem e como querem obtê-las. Ao criar seu conteúdo, use uma linguagem simples e um tom amigável – você não quer parecer condescendente.
  • Não confie apenas no som da sua própria voz. Gráficos e textos na tela, bem como música, podem ajudá-lo a explicar conceitos de forma rápida e clara.
  • Domine todos os itens acima e você descobrirá que a arte do jornalismo TikTok aumenta seu conhecimento dos tópicos sobre os quais está falando e aprimora sua prática.  Isso porque você precisa chegar rapidamente ao âmago de uma história – e de sua relevância para o público.

Gostou? As dicas não vieram de nenhum veterano, e sim de uma estudante de jornalismo britânica, Jane Corscadden, em artigo publicado no site do British Council como parte do Future News Worldwide, um programa em parceria com grandes organizações de mídia destinado a apoiar jovens jornalistas. 

Sinal dos tempos do TikTok. 


Luciana Gurgel,  Coordenadora editorial  do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association). 

luciana@jornalistasecia.com | @lcnqgur 

 

 

 

 

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *