O melhor do jornalismo de campanha britânico em 2020 

Por Aldo De Luca | MediaTalks, Londres 

Os avanços da legislação ou das iniciativas em prol de maior justiça social, assistência à saúde ou defesa do meio ambiente no Reino Unido não necessariamente se devem à melhor qualidade de seus congressistas ou autoridades, mas também – ou até principalmente – às campanhas promovidas por seus jornais, que são uma tradição na imprensa do país. 

A prática tornou-se importante a ponto de, todo ano, a News Media Association promover a premiação  “Making a difference” para reconhecer a melhor campanha do ano desenvolvida em nível nacional e em nível local, por meio de votação online nos cases pré-selecionados. 

Os jornais com mais indicações

Das campanhas nacionais do ano passado, 23 deles foram escolhidas entre as melhores para serem submetidas à votação. O jornal com mais indicações recebidas foi o Daily Mail e seu correspondente dominical Mail on Sunday, com nada menos do que nove. Um resultado notável, pois corresponde a quase uma campanha relevante por mês. 

O segundo colocado, o Daily Mirror, com sua publicação dominical Sunday Mirror emplacou quatro. Mas levou o prêmio deste ano, com a campanha para aumentar a pena de assassinos que não revelem o local onde deixaram o corpo de suas vítimas.

Em seguida destacou-se o The Times com sua dominical The Sunday Times com três. Para comprovar como as campanhas são importantes para todo o setor, com duas indicações cada um aparecem The Daily Telegraph e The Daily Express. Fecham a lista, com uma indicação cada The Guardian, The Sun e Evening Standard.

Os temas mais abordados

As campanhas finalistas de 2020 promoveram avanços reconhecidos em diversos setores da sociedade britânica. Um quarto (6) das pré-selecionadas abordaram questões de saúde pública, como medicamentos para vítimas da demência ou da fibrose cística.

Outras seis tiveram como principal foco a justiça social e a defesa de direitos, como as que buscaram melhor proteção online para as crianças, a igualdade para as mulheres na prática dos esportes escolares e o fim da segregação das crianças de famílias de menor renda nos playgrounds dos edifícios com apartamentos de propriedade particular e pública. 

Uma delas buscou reduzir a tensão provocada pela polarização política: incentivou milhares de conversas entre duplas de pessoas com visões políticas diferentes em torno de uma xícara de chá.

Quatro das campanhas discutem mudanças na legislação. Duas conseguiram com que todos os britânicos passassem a ser considerados doadores de órgãos a não ser que se expressem de forma contrária e o fim da liberdade condicional para assassinos que somem com os restos mortais de suas vítimas. Uma outra discute se não chegou o momento de ser a maconha ser descriminalizada.

Outras quatro campanhas lutaram para que culpados pagassem por seus crimes, resultando na prisão de quatro abusadores de crianças, do foragido responsável pela morte de uma mulher num passeio de lancha e de um dos responsáveis pelas mortes nos atentados no Hyde Park, crime que estava sem punição desde 1982.

O meio ambiente foi foco de três campanhas: uma incentivando o plantio de árvores, outra a coleta de lixo e a limpeza de rios e canais e uma terceira buscando uma melhor qualidade do ar para todos, principalmente nas proximidades das escolas.

Os resultados de cada uma demonstra mo que o ornalismo de qualidade pode fazer pelo desenvolvimento de uma nação. Difícil é escolher qual a melhor. Mas uma coisa é certa: no conjunto, elas vêm ajudando o Reino Unido a se tornar melhor.

Conheça a seguir asmelhores campanhas nacionais do Reino Unido de 2019 selecionadas pela News Media Association. Em qual você votaria? E quais seriam boas inspirações para o Brasil?

Cobrança de avanços na área de saúde (6) 

Custeio do tratamento das vítimas de demência (Daily Mail) – A campanha contou com petição assinada por 356 mil leitores para fazer com que as vítimas de demência, até então não considerada como condição médica, tivessem seus custos cobertos pela assistência pública. Mostrou casos de famílias que venderam casas para arcar com os custos. 

Ampliação da vacinação das crianças (Daily Mail) – Incentivou a vacinação das crianças e mostrou os perigos das campanhas antivacina. Acompanhou casos de jovens acometidos por doenças por não terem sido vacinados, o declínio da cobertura vacinal e a necessidade de recuperar o status de país livre de sarampo. O Governo comprometeu-se a implantar um sistema de lembretes de vacinas aos pais.

Fim dos maus tratos aos autistas (Mail on Sunday) – Mostrou como adolescentes e adultos autistas estavam sendo encarcerados em condições abusivas pelas instituições que recebiam verba pública para tratar deles. A campanha expôs um escândalo nacional que provocou o fechamento de várias instituições infratoras e cinco inquéritos.

Medicamentos para vítimas da fibrose cística (Daily Express) – O jornal perguntava como um problema de dinheiro poderia impedir que as vítimas tivessem uma vida mais longa. A campanha mostrou 86 estudos de caso, depoimentos das vítimas, gerou uma petição online com 100 mil assinaturas e levou a um acordo histórico entre a fabricante do remédio e o Governo para o tratamento dos pacientes.

Prevenção de concussões dos esportistas (Mail on Sunday) – Mostrou a ligação de lesões na cabeça e danos cerebrais, conseguindo persuadir órgãos dirigentes do esporte a dar proteção mais adequada aos atletas. 

Perigo do aumento do consumo de analgésicos viciantes (The Sunday Times) – A campanha do jornal mostrou a ação de redes do mercado negro para importar opióides da China devido à fraca regulamentação online, além de ligações não recomendadas de instituições que promovem o seu uso com as grandes farmacêuticas. Inquéritos foram abertos e reformas realizadas. O Governo anunciou que milhões de embalagens teriam que conter advertências sobre o vício em seus rótulos. Foi lançada a maior revisão das diretrizes de prescrição em décadas e endurecidas as regras para venda de opióides online. 

Promoção de Justiça Social e Defesa de Direitos (6)

aPromoção de igualdade das mulheres nos esportes escolares (Daily Telegraph) – Ao descobrir que apenas 8% das meninas estavam fazendo exercícios suficientes, a campanha exigiu das autoridades o fim do gap da participação entre meninos e meninas nos esportes escolares, buscando a equalização de oportunidades e que as escolas passassem a oferecer mais opções esportivas para as meninas. O Governo anunciou recursos de 5,5 milhões de libras e um novo plano de esporte escolar para atender à  reivindicação.

Fim da discriminação dos mais pobres nos playgrounds segregados(The Guardian) – Mostrou um efeito imprevisto e chocante da política habitacional que busca reservar no mesmo prédio unidades particulares, compradas por quem pode pagá-las, e públicas, de propriedade do Governo e destinadas a famílias de menor renda. Uma reportagem mostrou como as crianças mais pobres moradoras de um edifício do sul de Londres eram barradas e forçadas a assistir às crianças mais abastadas usarem as instalações. A campanha mostrou outros playgrounds segregados em Londres e no resto do país. Como resultado, a prefeitura de Londres inicialmente, e o governo do Reino Unido em seguida, anunciaram a proibição de espaços segregados em qualquer empreendimento a ser implantado no país.

Melhor proteção online para as crianças (The Daily Telegraph) – Apresentou pesquisas mostrando como o uso das mídias sociais e de games por crianças podem afetar seu bem-estar mental, suas relações e seu processo educativo. Tomando por base o caso de Molly Russell, uma adolescente que se suicidou causando enorme comoção nacional por causa de postagens no Instagram, o jornal passou a mostrar como as gigantes da tecnologia utilizam a psicologia comportamental para mantê-las online. Numa entrevista exclusiva ao jornal, o presidente do Instagram admitiu que a responsabilidade por cuidar das crianças pode salvar vidas.

Comida e lazer para as crianças de Broadwater Farm (The Sunday Times) – Ao final de uma reportagem mostrando as tristes condições das crianças de Broadwater Farm, uma das áreas mais pobres de Londres, o jornal pediu doações de seus leitores para oferecer a elas uma refeição por dia e uma viagem até o mar. Foram arrecadadas 350 mil libras em duas semanas.

Distensão da polarização do país (Daily Mirror) – Incentivou os leitores a se inscreverem para encontrar e conversar com uma pessoa com orientação política diferente durante um chá. Quatro mil pessoas se ofereceram e o Daily Mirror juntou 1.500 delas, acompanhando 20 encontros em todo o país. 

Defesa das agências locais dos Correios (Daily Mail) – O jornal liderou a cobertura nacional em defesa do papel desempenhado pelas agências nas comunidades locais. A vitória mais significativa foi um acordo de 58 milhões de libras após uma luta de duas décadas, em que as agências eram acusadas de desvio, mas comprovou-se que a diferença de caixa apurada era devido a uma falha do sistema de informática dos Correios.

Promoção de avanços na legislação vigente (4)

Fim da condicional para quem sumir com corpos das vítimas (Daily Mirror) – Terminou bem sucedida a campanha promovida desde 2015 em apoio à luta da mãe de Helen McCourt para que os assassinos que não revelem a localização dos corpos de suas vítimas não tenham direito à liberdade condicional. Helen foi morta em 1988 aos 22 anos e seu corpo nunca foi encontrado. Mais de 600 mil leitores assinaram a petição. O secretário de Justiça anunciou um novo dispositivo, a “Lei de Helen”, que permite aos juízes não conceder liberdade condicional nos casos em que os presos não revelem o local dos restos mortais da vítima.

Descriminalização da maconha (Evening Standard) – Com base numa pesquisa que mostrou que apenas 30% da população do país são contra a proibição da maconha e 63% dos londrinos apoiam sua liberação, o jornal lançou a questão de se já não seria hora de torná-la legal. A campanha incluiu visitas a países que já promoveram a legalização e analisou implicações sociais, de saúde, econômicas e de justiça criminal, incluindo entrevistas com traficantes de Londres e policiais. Como resultado, o prefeito de Londres pediu “um repensar das leis sobre a maconha” e a comissária de polícia suavizou sua posição e disse que “a liberação no Canadá é uma experiência interessante a ser observada”. 

Doação de órgãos (Daily Mirror) – Depois de uma campanha de três anos feita pelo jornal, o Governo anunciou uma nova lei na Inglaterra fazendo com que todos sejam considerados doadores de órgãos ao morrer, a não ser que expressem seu desejo contrário. 

Revisão dos casos de abuso doméstico (Daily Express) – Baseado numa reportagem sobre a batalha judicial de uma mãe com o ex-marido preso por abusar dos  filhos, o jornal fez com que fosse realizada revisão nos casos da Corte de Família e secretário de Justiça comprometeu-se  a aprimorar a justiça de família e dar mais apoio às vítimas de abuso doméstico.

 Penalização de culpados ( 4)

O escândalo do pedófilo Carl Beech (Daily Mail) – Expôs escândalo da justiça criminal em torno do pedófilo Carl Beech, condenado à prisão por 18 anos, além de erros dos sistemas policial e judiciário na condução do caso.

Busca ao assassino foragido de vítima da lancha (Daily Mail) – O jornal ofereceu recompensa de 25 mil libras e acompanhou pistas até a prisão de Jack Shepperd, responsável pela morte de uma mulher num passeio de lancha. Gerou debate nacional a respeito de ajuda pública para recursos jurídicos de foragidos. Shepperd foi preso na Georgia e condenado a seis meses pela fuga e 6 anos por homicídio culposo.

Justiça para as vítimas dos atentados do Hyde Park (The Sun) – Buscou a penalização dos culpados dos atentados de 1982 no Hyde Park, que estavam sem punição desde então. O jornal levantou 85 mil libras para cobrir custos legais das famílias das vítimas. Em 2019, finalmente, um participante foi considerado culpado pelo ataque.

Prisão para abusadores de crianças de Telford (Sunday Mirror) – O jornal denunciou casos e apresentou provas que ajudaram a condenar quatro abusadores de crianças por crimes que se sucediam desde 2000. A campanha também gerou uma investigação pública a respeito de redes organizadas de exploração de meninas da cidade nos anos 80.

Defesa do Meio Ambiente (3)


Seja um Anjo das Árvores
(Daily Mail) – Movimento nacional de plantio de árvores.

Campanha de limpeza (Daily Mail) – Incentivo a voluntários para coleta de lixo e limpeza de rios e canais. 

Ar limpo para todos (The Times) – Busca de uma nova lei de ar limpo, para adequação aos padrões mínimos de qualidade do ar estabelecidos pela OMS e proibição de trânsito perto das escolas dos locais mais poluídos, apontando 6.500 escolas nessas condições.


Aldo De Luca,  Conselheiro e colaborador do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileiro radicado em Londres. Formado em Jornalismo pela UFF (Universidade Federal Fluminense), foi repórter especial do jornal O Globo em 1987 e 1988. Fundou junto com Luciana Gurgel a agência Publicom, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group).  Além de jornalista,  é Engenheiro pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Integra a  FPA (UK Foreign Press Association). 

 

Gostou do que leu aqui? Comente. Compartilhe. O debate sobre os rumos do jornalismo é fundamental para a sociedade. 

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *