Impor limites para discurso de ódio e desinformação não é apenas questão para as redes sociais. O problema também envolve a imprensa  

Por Luciana Gurgel | MediaTalks, Londres 

(coluna publicada originalmente no Jornalistas&Cia/Portal dos Jornalistas em 21/10/2020)

O atentado a um professor na França colocou novamente em pauta a questão para a qual ninguém parece ter resposta: como limitar discursos de ódio e fake news nas redes sociais e também na imprensa sem comprometer a liberdade de expressão? 

O destino das redes parece traçado. Países como o Reino Unido, Austrália e a própria França caminham para regulá-las. Designar alguém, um órgão para fiscalizar, porém, é o menor dos problemas. Complexo é estabelecer critérios e evitar efeitos colaterais. 

No relatório Liberdade na Rede 2020, a organização Freedom House alerta: 

“Atores estatais e não estatais em muitos países estão agora explorando as oportunidades criadas pela pandemia para moldar narrativas online, censurar o discurso crítico e construir sistemas tecnológicos de controle social”.

A organização britânica Article 19 divulgou esta semana um relatório apontando queda da liberdade de expressão em todo o mundo nos últimos 10 anos. E destaca o Brasil como país onde o declínio foi acentuado (leia o artigo aqui no MediaTalks).

O caso mais recente de legislação restritiva vem da Turquia, onde em 1º de outubro entrou em vigor uma lei destinada a controlar informação compartilhada pelas mídias sociais, vistas como ameaça pelo governo. Na Bielorrússia a população engajou-se para contestar o resultado das eleições, supostamente fraudadas, por meio de um canal no Telegram, mostrando que em países sem liberdade de imprensa as redes exercem papel vital. 

Por outro lado, o perigo das teorias conspiratórias para a saúde pública, problema agravado na pandemia, exige ação para proteger vidas. As redes viraram terreno fértil para movimentos como o QAnon, que se aproximou de grupos antivacina e de gente inconformada com medidas de distanciamento social.

Um problema que também é da imprensa 

A cobrança de ação contra o discurso de ódio bate também às portas da imprensa. Em abril o órgão de controle britânico Ofcom tinha tomado medidas contra duas emissoras de TV por entrevistas com o conspiracionista David Icke, por entender que as teses dele não foram confrontadas. 

Caso semelhante acontece agora no país, desta vez com o jornalista conservador Darren Grimes, dono de um canal no YouTube. Em uma entrevista a Grimes em setembro, o escritor David Starkley ofendeu negros. A Scotland Yard abriu investigação contra o jornalista por incitar o ódio racial ao transmitir a entrevista. 

Houve reação de políticos e jornalistas contra o que foi entendido como atentado à liberdade de expressão e o caso acabou suspenso. Difícil saber se a polícia abriria inquérito se fosse uma TV e não um canal no Youtube, e se Grimes não fosse uma figura controvertida. 

De qualquer forma, o episódio expõe a encruzilhada em que se veem os veículos de comunicação. Em tempos de nervos à flor da pele, precisam equilibrar-se entre dar voz a todas as correntes e impor limites (quais? com base em quê?) ao que pode ser interpretado como desinformação ou discurso de ódio por parte de entrevistados. Muitas vezes ao vivo. 

Foi o que aconteceu na Nova Zelândia. No último sábado (18/10), Tova O’Brien, editora de política do Newshub, ganhou o mundo ao impedir que o entrevistado − um candidato derrotado nas eleições − continuasse falando inverdades sobre o coronavírus, comparando-o com a gripe comum. 

“Não quero ouvir esse lixo”, interrompeu ela. E finalizou dizendo que ele nunca mais seria convidado. O post teve mais de dez milhões de  compartilhamentos, aparentemente sem reclamações sobre censura. 

 

Mas com tanta coisa de pernas para o ar, em pelo menos um caso a repreensão à imprensa veio de onde menos se espera: de uma rede social. 

O Twitter bloqueou há duas semanas o compartilhamento de uma matéria do New York Post sobre Joe Biden, sob a alegação de que a denúncia de envolvimento com a Ucrânia era proveniente de hackeamento (extraída do disco rígido de um computador esquecido pelo filho do candidato à Presidência em uma oficina).  

Após uma semana a plataforma voltou atrás e liberou o compartihamento, embora sinalizando o post.  

Porém, deixou no ar outra discussão: os fins justificam os meios no caso de apuração de fatos de interesse público? Mais uma conversa que não começou hoje e que não deve ter data para acabar.


Leia também: 

O relatório da ONG Article 19 que mostra queda da liberdade de expressão na última década, e destaca o Brasil como um dos países onde ela mais caiu. 

Pesquisa da Hope Not Hate demonstra que é possível conter o avanço de teorias conspiratórias como o QAnon nas redes sociais, reconhecendo a eficiência das iniciativas recentes do Facebook e do YouTube. Mas lamenta ter sido tarde demais: n Reino Unido, 6% da população declararam-se adeptos do movimento, e 25% concordam com teses por ele defendidas. 


Luciana Gurgel, Coordenadora editorial do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association). 

luciana@jornalistasecia.com | @lcnqgur 

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