O lado negro da força

 

 

 

  • Hope not Hate mostra como o QAnon cresceu graças à inação das plataformas digitais e diz que reação tardia não reverte os danos causados por proliferação de três anos sem controle
  • A boa notícia é que é possível conter tais movimentos se houver ação rápida 

 

Por Aldo De Luca | MediaTalks, Londres 

Um novo relatório da ONG antifascista britânica Hope Not Hate, publicado em 22 de outubro, traz boas e más notícias. A má: o trabalho é o primeiro a quantificar o tamanho do movimento QAnon no Reino Unido: 6% da população se declararam adeptos e 25% concordam com as teorias por ele pregadas, sobretudo pelas redes sociais. 

A boa: a entidade prova que está ao alcance das plataformas digitais impedir que teorias conspiratórias se proliferem como o QAnon, reconhecendo a eficácia das iniciativas recentes do Facebook e do YouTube para impedir a propagação de conteúdo associado a esses movimentos. O problema é que no caso do QAnon a ação chegou tarde. Mas se as plataformas assim o desejarem, o futuro pode ser diferente. 

QAnon, um produto da era das mídias sociais

O relatório da Hope Not Hate descreve como a inação das plataformas de mídias sociais ao longo dos últimos três anos permitiu que elas fossem usadas e abusadas para a disseminação do discurso de ódio − e, nesse contexto, para o crescimento do QAnon, considerado pela ONG como um produto da era da mídia social, num grau maior do que qualquer movimento comparável.

O estudo sustenta que a justificativa das plataformas, de que estariam apenas espelhando os fenômenos sociais existentes, não se aplica num caso como o do QAnon, por ser este um movimento que não existia até ser viabilizado por elas:

“Cada empresa foi criticada no passado por seu fracasso em lidar com ideologias extremistas, como a supremacia branca e extremistas islâmicos, mas pode-se argumentar que suas plataformas estavam apenas refletindo fenômenos sociais mais amplos. 

No QAnon, eles foram responsáveis por permitir que um novo movimento nascesse e fosse criado em suas plataformas; um que poderia ter sido impedido de atingir até mesmo uma pequena fração de seu tamanho atual se eles tivessem agido antes. As empresas de mídia social devem aprender as lições desse desastre e aplicá-las de forma consistente daqui para a frente.”

A pesquisa afirma ser improvável que o QAnon pudesse ter surgido em qualquer outro lugar que não fosse as redes 4Chan e 8Chan, que permitiram que a identidade do líder do movimento, Q, permanecesse desde 2017 no anonimato. Mas argumenta que esse alcance teria permanecido marginal se não tivesse passado às principais plataformas de mídia social e dali crescido inicialmente sem qualquer controle, passando a espalhar-se pelo mundo. 

Uma pesquisa  do Institute for Strategic Dialogue (ISD) já apontava que a adesão global dos grupos QAnon no Facebook tinha aumentado 120% somente eem março deste ano.

Facebook e YouTube reagem e decidem banir o QAnon

A ONG reconhece que as plataformas reagiram ao perigo, mas de forma tardia. Em julho, o Twitter anunciou que havia removido 7.000 contas e “limitado” 150.000 outras, reduzindo seu alcance e limitando sua capacidade de ganhar novos seguidores. Facebook e Instagram reagiram  em agosto, removendo 900 grupos e páginas QAnon e limitando mais de 10.000 contas, embora circunscrendo as restrições àquelas que explicitamente promoviam a violência.

O relatório destaca que quando as plataformas agem, os resultados aparecem:

“O tráfego para o site QMap.pub, o mais popular para acessar as postagens do líder Q, caiu quase 25%. Slogans de QAnon foram impedidos de aparecer nos trending topics de todas as três plataformas e, embora muitos dos usuários suspensos tenham retornado configurando novas contas, seu alcance foi severamente limitado pela perda de sua contagem de seguidores.

Em outubro, o Facebook e o YouTube foram ainda mais longe, anunciando que tentariam remover totalmente a presença da QAnon de suas plataformas. Isso foi seguido pelo que parece ser uma ação rápida e decisiva: Shayan Sardarizadeh, da BBC, relatou que 80% dos grupos e páginas do Facebook que ele monitorava foram excluídos 24 horas após o anúncio, enquanto muitos dos maiores canais da QAnon no YouTube desapareceram horas após seu anúncio, em 15 de outubro.”

Não é tão simples combater o lado negro da força

Mas demonstrando como é difícil banir o QAnon das redes, o jornal britânico The Times revelou uma falha nos algoritmos do Facebook no mesmo dia em que a Hope For Hate divulgava seu relatório.

Segundo o jornal, buscas sobre marcenaria e sobre o ministro da Igualdade britânico, Kemi Badenoch, estavam sendo equivocadamente vinculadas ao QAnon e direcionavam para a seguinte mensagem: 

“Esta busca pode estar associada a um perigoso movimento de conspiração chamado QAnon. Os especialistas dizem que o QAnon e a violência que ele inspira são um risco significativo para a segurança pública.” 

A partir dali o visitante era redirecionado para a Rede Global sobre Extremismo e Tecnologia, braço de pesquisa do Fórum Global da Internet contra o Terrorismo, uma iniciativa criada e financiada pelo Facebook em parceria com outros gigantes da tecnologia, como YouTube, Twitter e Microsoft.

O jornal publicou a explicação do porta-voz do Facebook: 

  Quando lançamos a iniciativa de redirecionamento para o QAnon, houve uma falha que fez com que as pessoas vissem informações sobre este tópico ao pesquisar termos não relacionados. Pausamos esse redirecionamento enquanto corrigimos o problema”. 

A cobrança de ação das outras plataformas

A Hope not Hate questiona se outras plataformas assumirão a responsabilidade de seguir o Facebook e o YouTube na tentativa de banir o QAnon de suas plataformas inteiramente, e se todas vão dedicar tempo e recursos suficientes para implementar e manter suas decisões, embora isso não reverta os danos já causados:

“O tamanho do público das principais plataformas é um atrativo suficiente para garantir que os promotores do QAnon nunca parem de tentar recuperar o acesso; qualquer ação contra eles exigirá, portanto, vigilância infinita, para que não reapareçam sob novas formas para repovoar as plataformas.

Mas, aconteça o que acontecer, quaisquer ações tomadas agora não reverterão os danos que três anos de proliferação, em grande parte sem controle, nas plataformas de mídia social causaram.”

No Reino Unido, 6% já apoiam o QAnon e pesquisa aponta grande potencial de crescimento: 29% dos britânicos acreditam em grupo secreto que controla o mundo

A nova pesquisa da ONG Hope not Hate é a primeira realizada no Reino Unido para quantificar a proporção de britânicos que conhece o movimento, os que dizem apoiá-lo e os que estão propensos em acreditar nas teorias de conspiração mais ligadas a ele.

Feita em setembro, revelou que um em cada cinco britânicos (19%) disseram já conhecer o QAnon e 6% revelaram-se apoiadores. Ou seja, de cada três britânicos que conheceram o movimento, um tornou-se apoiador.

Mas o fato mais preocupante é que uma parcela de 29% dos britânicos concorda com a ideia de que há “um grupo secreto de pessoas que, juntas, controlam os eventos e governam o mundo”, sendo que esse percentual chega a 43% entre os jovens de 25-34 anos e a 39% entre os de 18 a 24 anos. 

Essa é uma das teorias de conspiração mais associadas ao QAnon, movimento surgido nos Estados Unidos que alega justamente haver uma rede secreta satânica global de políticos e celebridades que abusam de crianças, e que foi classificado pelo FBI como principal ameaça terrorista doméstica do país.

Também houve forte adesão às teorias de que de que “as elites em Hollywood, na política, na mídia e em outras posições poderosas” estão secretamente engajadas no tráfico e abuso infantil em grande escala (26%), de que existem cultos satânicos secretos com a participação de elites influentes (25%), de que a Covid-19 foi lançada intencionalmente como parte de um “plano de despovoamento” conduzido pela ONU ou pela “Nova Ordem Mundial” (17%) e que uma vacina desenvolvida contra a doença conterá um microchip para rastrear as pessoas (14%). 

Esses percentuais foram maiores ainda entre os jovens, o que faz deles o grupo mais propenso a apoiar o movimento e para o qual o QAnon tem mais dirigido suas ações. O motivo da preocupação deve-se ao fato de que o movimento usa como sua principal estratégia para ganhar adeptos a infiltração em grupos de discussão de temas associados a alguma dessas ideias.

Da crença em uma conspiração leve à crença QAnon

Como os grupos criados nas mídias sociais com um propósito específico correm o risco perpétuo de serem descarrilados por postagens fora do tópico, ainda mais na medida em que crescem, tornam-se um ambiente propício para a  proliferação do QAnon.

Isso porque os seguidores de grupos de determinadas teorias de conspiração menos extremas, como por exemplo, a letalidade da radiação 5G, estão mais suscetíveis a aderir a teorias de superconspirações representadas por movimentos como o QAnon.

A estratégia usada pelo QAnon incita no grupo em que se infiltrou a busca de uma explicação mais ampla para a conspiração específica que o perturba, conforme explica o relatório da Hope not Hate:

“Esses grupos de discussão provaram ser um terreno fértil para o QAnon, por fornecerem uma explicação aparente para as conspirações menores. A progressão lógica para quem passa a acreditar, por exemplo, que a radiação 5G da internet é letal, é questionar por que nossas empresas de telecomunicações, provedores de saúde e governos estariam infligindo tal dano ou ocultando a evidência dele. 

Assim, a crença dos seguidores do QAnon de que os governos globais são controlados por uma conspiração de pedófilos adoradores de Satanás, que pode parecer bizarra para a maioria, soa menos estranha para alguém que passou semanas ou meses sendo bombardeado por postagens sobre uma subteoria menos macabra e que busca explicações para ela”. 

Jovens britânicos são os que mais conhecem o QAnon

Do total dos pesquisados, 19% já tinham ouvido falar de QAnon (em azul no gráfico), enquanto a maioria disse que não (76%, em vermelho) e 6% não tinham certeza (em verde). 

Os mais jovens são os mais familiarizados com a teoria. O maior índice (26%) ocorreu na faixa de 25-34 anos, seguido por 24% dos jovens de 18 a 25 anos. Eles também são os mais abertos a teorias de conspiração em geral. O conhecimento do QAnon diminui à medida que a idade avança, chegando a somente 8% entre os com mais de 75 anos.

Mais homens (23%) do que mulheres (15%) disseram ter ouvido falar do movimento. Os entrevistados com formação superior (26%) mostraram-se mais conhecedores do QAnon do que os não graduados (15%).

Dos que conhecem o QAnon no Reino Unido, um terço apoia, com predominância dos jovens

Da parcela dos 19% que disseram conhecer o QAnon, quase um em cada três (31%) disseram apoiar o movimento, o que significa 6% da amostra total. Os apoiadores dividiram-se praticamente em quantidades iguais entre os com suporte forte (fatia azul-escura) ou brando (fatia vermelha).

As faixas mais jovens são as mais predominantes entre os apoiadores, novamente nas faixas de 18-24 e 25-34 anos. Mas quanto à escolaridade, os menos graduados são mais predominantes. A proporção entre homens e mulheres é equivalente. Entre os fortes apoiadores, a maior parcela tende a preferir o Partido Conservador ao Trabalhista e votou pela saída da União Europeia. 

Do lado oposto, a metade (47%) disse opor- se ao movimento, sendo que 42% (fatia azul clara) consideraram-se fortes oponentes; o restante revelou uma oposição branda (fatia lilás). Um percentual de 16% dos que conhecem o QAnon mostrou-se indiferente e 6% não soube definir sua atitude em relação ao movimento.

29% concordam que cabala secreta controla governos globais: é a teoria na qual mais  britânicos acreditam


A crença numa cabala secreta é uma das principais do QAnon. Para testar o seu apelo, os pesquisadores perguntaram o quanto os entrevistados concordavam com a afirmação de que “independentemente de quem está oficialmente no comando de governos e outras organizações, existe um grupo secreto de pessoas que, juntas, controlam os eventos e comandam o mundo”.

Quase a terça parte (29%) dos entrevistados não rejeitou a ideia, dos quais 20% concordaram e 9% concordaram fortemente.

Os mais jovens foram os que mais aderiram, chegando a 43% (17% fortemente) na faixa de 25-34 anos e a 39% (15% fortemente) no grupo de 18-24 anos.

25% acreditam em cultos satânicos com participação das elites: é a teoria com a qual os britânicos concordam mais fortemente

 Uma parcela de 25% dos entrevistados concorda com a afirmação de que cultos satânicos secretos existem e incluem elites influentes, sendo que 7% deles fortemente.

A terça parte dos grupos mais jovens, de 18-24 e 25-34 anos concorda com a ideia, mas o que chama a atenção é a proporção dos que acreditam fortemente nisso, com altos índices até entre os mais velhos.

O fato de a natureza satânica, que é o núcleo da crença QAnon, ser a teoria em que os britânicos de todas as faixas etárias acreditam mais fortemente é explicada no relatório:

“A ideia de que elites influentes estariam secretamente engajadas na adoração do diabo é muito anterior ao QAnon, tendo sido proliferada por grupos religiosos por centenas de anos, sendo portanto de se esperar que a noção seja mais amplamente apoiada.”

17% manifestam antissemitismo preocupante

Uma parcela de 17% dos entrevistados, sendo 10% fortemente, concorda com a teoria de que “os judeus têm controle desproporcional das instituições poderosas e usam esse poder para o benefício deles e contra o bem da população em geral”. O apoio a esta afirmação antissemita aumenta para 30% na faixa etária de 25 a 34 anos.

Os pesquisadores consideraram o resultado bem preocupante: 

“Antissemitismo é uma tradição de longa data de crença conspiratória, com o povo judeu muitas vezes explicitamente ou implicitamente identificado como protagonista de várias tramas. O QAnon baseou-se em algumas dessas noções estabelecidas, com uma forte veia de antissemitismo percorrendo a teoria”.

Entre as teorias conspiratórias da Covid-19, vírus como arma biológica é aquela em que os britânicos mais acreditam, com exceção dos mais jovens, que crêem mais num plano para reduzir a população mundial

Três teorias conspiratórias sobre a Covid-19 foram apresentadas aos entrevistados. Aquela que contou com maior número de adeptos foi a que diz que a doença seria uma arma biológica disseminada internacionalmente pela China para enfraquecer as economias ocidentais. Mais de um em cada cinco dos entrevistados (23%) concordou com essa declaração, sendo que 8% fortemente. Foi a teoria com mais adeptos em todas as faixas etárias, à exceção da faixa mais jovem, de 18 a 24 anos.

A teoria com o segundo maior índice no geral foi a que teve mais adeptos entre os jovens de 18-24 anos. Uma parcela de 17% dos entrevistados, sendo 7% fortemente, concordou com a declaração de que a Covid-19 foi lançada intencionalmente como parte de um plano orquestrado pela ONU ou pela “Nova Ordem Mundial” para reduzir a população mundial.

A teoria menos cotada foi a que afirma que a vacina da Covid-19 será usada para infectar com veneno ou inserir microchips nas pessoas. Mesmo assim, 14% dos entrevistados disseram concordar com ela, sendo que 5% fortemente. Essa teoria foi a menos cotada em todas as faixas etárias, à exceção dos jovens entre 18-24 anos, entre os quais ficou em segundo lugar.

O resultado não surpreendeu os pesquisadores, que alertam:

“O crescimento das teorias de conspiração sobre a Covid-19 coincidiu com a disseminação do QAnon, que incorporou tais teorias em sua grande narrativa, com seguidores afirmando que o vírus é fabricado ou uma arma lançada pela cabala para permitir fraude eleitoral, ou outros fins malignos.

Essa incorporação tem o potencial de erodir a confiança em especialistas e autoridades médicas e impulsionar a disseminação de desinformação e pseudociência em saúde em meio a uma pandemia global.”

Seguidores quadruplicaram

Antes de março deste ano, a Hope not Hate tinha identificado no Reino Unido apenas três grupos do Facebook dedicados ao QAnon, reunindo um total de menos de 5 mil seguidores. Em meados de maio, esse número havia crescido para mais de dez grupos, reunindo mais de 20 mil seguidores.

A análise do Guardian no mês passado revelou que o QAnon estava ganhando terreno na mídia social do Reino Unido, impulsionado por uma coalizão de grupos de espiritualidade e bem-estar, redes de vigilantes “caçadores de pedófilos”, fóruns de conspiração, páginas de notícias locais, ativistas pró-Brexit e adeptos da extrema direita.

Depois de rastrear cinco slogans associados ao QAnon compartilhados por páginas do Facebook do Reino Unido no ano passado, as interações em postagens contendo as palavras-chave desses slogans aumentaram cinco vezes entre abril e agosto, último mês completo para o qual havia dados disponíveis.

Com os resultados encontrados na pesquisa, a Hope not Hate alerta que o movimento pode se espalhar ainda mais: 

“O QAnon permanece marginal no Reino Unido, mas a pesquisa revela uma insatisfação geral entre as faixas etárias da população britânica, especialmente os jovens, e uma abertura ao antissemitismo e à noção de que o abuso sexual e o satanismo estão em ação entre os poderosos. Isso sugere que há espaço para o QAnon espalhar-se ainda mais, reunindo aqueles que já são suscetíveis à sua visão de mundo.”

Para o líder do QAnon, perder as mídias sociais é perder o campo de batalha

Numa mensagem (ou drop, como os seguidores preferem chamar) de junho, o líder Q conclama todos os integrantes do movimento a não se retirarem das plataformas de mídias sociais, a que ele se refere como campo de batalha.

Ele dá instruções de como atuar e cita o Twitter e o Facebook como exemplos do campo de batalha a não ser perdido.

A mensagem demonstra a importância das mídias sociais para a sobrevivência e o crescimento do grupo e a disposição do líder do movimento em mobilizar os seguidores para resistir e driblar as restrições e os banimentos promovidos pelas plataformas digitais.

O relatório da Hope and Hate ressalta que, além da enorme audiência global, a saída forçada do “campo de batalha” retira do movimentos três poderosas armas que o impulsionaram até aqui: as recomendações algorítmicas, as hashtags e os vídeos.

Recomendações algorítmicas sugerem sites QAnon 

O relatório da Hope not Hate mostra como as recomendações das próprias plataformas digitais têm um impacto significativo no crescimento dos grupos de teoria da conspiração, tomando como exemplo uma pesquisa feita num grupo QAnon no Facebook.

Mais de um quarto dos 950 integrantes afirmou ter entrado no grupo como resultado de uma recomendação do Facebook. Foi a terceira maior fonte de adesão ao grupo, à frente de recomendações ou convites de amigos.

O relatório enfatiza o potencial de danos das recomendações algorítmicas e da necessidade de serem radicalmente revistas por todas as plataformas:

O grupo Adrenochrome / Adrenaline − Epinephrine” dedica-se à subteoria QAnon / Pizzagate, que afirma que uma vasta rede de celebridades e políticos está traficando, torturando e matando milhares de crianças a fim de colher suas glândulas suprarrenais para uso como elixir da vida e droga recreativa. O fato de os algoritmos do Facebook estarem direcionando seus usuários a esse elemento particularmente macabro da tradição QAnon é um exemplo claro dos danos que essas recomendações podem causar.

Essas recomendações não apenas parecem ser a principal rota pela qual as pessoas se unem a esses grupos, mas também podem atrair aqueles que estão à margem do mundo da teoria da conspiração. Um usuário do Facebook cujo amigo compartilha uma postagem de um grupo QAnon pode ser tentado a clicar no grupo por mera curiosidade; a partir desse momento, o algoritmo terá registrado seu interesse pelo tema e passará a sugerir-lhe grupos e páginas que reafirmam essas narrativas.

A decisão do Facebook de remover todo o conteúdo QAnon irá, se seguida corretamente, resolver este problema. Mas é vital que todas as plataformas abordem a questão mais ampla das recomendações algorítmicas, que continuarão a ajudar no desenvolvimento e na difusão de ideologias prejudiciais, a menos que sejam radicalmente revisadas.

Hashtags conectam seguidores e facilitam alcançar não seguidores

O uso de hashtags também se mostrou inestimável para o QAnon. Os slogans do movimento instantaneamente reconhecíveis, como #WWG1WGA e #QSentMe, permitiram aos apoiadores se conectarem uns aos outros e também aumentaram a visibilidade do movimento. 

A Hope not Hate destaca que o recurso ainda ajuda  a ganhar visibilidade entre não seguidores: 

A utilização de hashtags não relacionadas criadas para eventos de notícias ou conversas específicas permite que os tweets ganhem visibilidade entre os usuários que não seguem sua conta; eventos como as mortes de Jeffrey Epstein e de George Floyd ou a pandemia da Covid-19 permitiram que os apoiadores do QAnon colocassem suas narrativas na consciência da população em geral, juntando-se a essas conversas por meio de hashtags relacionadas.

Vídeos disseminam mensagem e foram porta de entrada para o grande público

Uma análise do ISD (Institute of Strategic Dialogue) descobriu que 20% das postagens do Facebook promovendo o QAnon continham links para vídeos do YouTube, ilustrando a importância do conteúdo de vídeo para o movimento. A maior conta dedicada exclusivamente a promover QAnon no Twitter, PrayingMedic, também direcionava os seguidores para seu canal no YouTube. 

A audiência do YouTube desempenhou papel essencial na disseminação das narrativas do QAnon desde os primeiros dias. Foi um vídeo no YouTube a porta de entrada para o movimento espalhar-se pelas principais plataformas digitais, como ressalta o relatório da Hope not Hate:

Apenas uma semana após as primeiras postagens do líder do movimento Q no 4chan, uma youtuber chamada Tracy Diaz, que já havia coberto a teoria de Pizzagate extensivamente, produziu um vídeo resumindo a narrativa emergente de Q, trazendo-a pela primeira vez à atenção da comunidade de seguidores das teorias de conspiração.

Uma enorme comunidade de intérpretes QAnon surgiu no YouTube nos anos seguintes, desenvolvendo um vasto público para os vídeos nos quais eles interpretam mensagens de Q e analisam o noticiário pelas lentes do QAnon. Alguns, como Diaz, tinham canais preexistentes que impulsionavam as teorias de conspiração da extrema direita, mas logo conquistaram grande audiência após adotarem o QAnon. 

A importância dos vídeos ficou ainda mais patente com o surgimento este ano de uma enxurrada de documentários que promoveram diversos aspectos da narrativa QAnon, como Fall of the Cabal, Out of Shadows e Plandemic. Esses vídeos receberam milhões de visualizações no YouTube, entre outras plataformas, e o alto valor de produção dos dois últimos deu ao assunto um verniz de profissionalismo até então não alcançado.

Devido a essa importância, o relatório da Hope not Hate ressalta que a decisão do YouTube de remover o conteúdo relacionado ao QAnon foi um duro revés para os canais mais proeminentes do movimento, que tiveram que passar a outras plataformas de vídeo não moderadas:

Nenhum dos sites de tecnologia alternativa iguala-se à audiência que o YouTube pode oferecer e, como tal, essa mudança representa um golpe significativo tanto para os proprietários dos canais QAnon quanto para o movimento como um todo.

A íntegra do relatório pode ser lida aqui


Leia também: 

A origem do QAnon e como ele se espalha por vários países – incluindo no Brasil – associando-se a grupos antivacina e contrários a medidas de distanciamento social para controlar o coronavírus. 

O relatório da ONG Article 19 que mostra queda da liberdade de expressão na última década, e destaca o Brasil como um dos países onde ela mais caiu. 

Artigo no The Conversation aborda o problema da desinformação sobre drogas circulando nas redes sociais. 

 


Aldo De Luca,  Conselheiro e colaborador do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileiro radicado em Londres. Formado em Jornalismo pela UFF (Universidade Federal Fluminense), foi repórter especial do jornal O Globo em 1987 e 1988. Fundou junto com Luciana Gurgel a agência Publicom, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group).  Além de jornalista,  é Engenheiro pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Integra a  FPA (UK Foreign Press Association). 

 

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