Privação de notícias: o recurso usado pela Newsworks para saber por que elas são importantes

Por Luciana Gurgel | MediaTalks, Londres 

Privar as pessoas de notícias durante alguns dias para entender suas reações foi um dos experimentos que fizeram parte da pesquisa World Without News, desenvolvida ao longo de nove meses pela entidade setorial britânica Newswork, que se dedica a promover o meio jornal.  

O estudo, executado por três empresas diferentes, adotou um viés comportamental para identificar onde o jornalismo entra na vida das pessoas e como contribui para os objetivos que fazem parte da essência do ser humano.

Além de trazer boas novas, como a de que 70% dos entrevistados consideram o jornalismo essencial para a democracia, o trabalho reúne elementos que mostram os objetivos do público ao consumir notícias e os meios que contribuem mais para cada objetivo.

Leia mais sobre os resultados que mostram a manutenção da confiança adquirida durante a pandemia. http://www.mediatalks.com.br/pt/2020/11/04/pandemia-consolida-confianca-no-jornalismo/

O trabalho  foi feito em duas etapas, antes e depois do lockdown, e executado pelas empresas Office of Ideologies, Map the Territory e Tapestry Research. A primeira fase consistiu em uma análise semiótica que decodificou as diferentes técnicas que 15 veículos usaram para cobrir cinco notícias importantes.

Em seguida, os pesquisadores realizaram um experimento comportamental. Consumidores regulares de notícias foram privados de assistir, ouvir ou ler o noticiário por uma semana, vivendo em um mundo sem notícias. Ao mesmo tempo, pessoas que não tinham hábito de consumir notícias foram convidadas a ler um jornal todos os dias.

Denise Turner, diretora da Newsworks, ressaltou no seminário de apresentação do trabalho que, embora os dois grupos fossem opostos no que diz respeito ao hábito de consumir notícias, os resultados do experimento foram surpreendentemente semelhantes:

“Um mundo sem notícias deixou as pessoas mais ansiosas, sem clareza e menos conscientes de sua perspectiva de mundo”.

Por fim, foi feito um acompanhamento 24 horas com 1.135 consumidores de notícias. E pesquisas de opinião face a face com amostra representativa do país realizadas em fevereiro, antes da Covid-19, e em agosto, após o fim do lockdown. Os pesquisadores examinaram, entre outros aspectos, em que momentos do dia os participiantes interagiam com as diferentes fontes de informação, permitindo entender melhor o papel de cada uma na vida cotidiana.

Denise Turner observou que o resultado mostrou que “ a percepção de qualidade depende do observador” das notícias. E que o bom jornalismo não deve ser visto apenas como aquele que entrega “notícias sérias”, mas sim encarado como canal de transmissão deinformações que capacitem os leitores a ter opinião sobre qualquer assunto.

A Newsworks sustenta que os jornais vão além de divulgar informações sobre o que está acontecendo no mundo.

” Na realidade, fazem muito mais do que isso. Escolhem, editam, criam, organizam, enfatizam, destacam e omitem. Eles representam em vez de simplesmente ’apresentar’”.

A pesquisa indicou que a posição é correta, na visão dos leitores. Ela captou que 76%deles veem os jornais como mais do que fontes para saber sobre os atos, dando valor ao enfoque analítico nas notícias que recebem.E 63% disseram indentificar-se com o ponto de vista do jornal que leem, reflexo do posicionamento político declarado que caracteriza a mídia impressa no Reino Unido, onde os jornais declaram alinhamento a um dos dois grandes partidos, o Conservador e o Trabalhista.

O relatório afirma que o experimento comportamental revelou que privar as pessoas deseu jornal regular resultou em sensação de perda de algo – seja controle, opinião, conhecimento, senso de perspectiva ou de propósito. E isso levou os pesquisadores a questionarem porque a notícia é importante para as pessoas:

“A resposta é que as notícias ajudam a atingir o objetivo humano fundamental, à luz da neurociência. Ela diz que a motivação é o principal motor do comportamento humano. Somos subconscientemente levados a agir a fim de atingir nossos objetivos. Um produto ou serviço é mais relevante na medida em que contribui para isso.

Ao privar os participantes de acessar notícias, foi possível perceber quais são os objetivos subjacentes relacionados ao consumo de notícias, e as estratégias alternativas adotadas pelas pessoas para atingir tais objetivos”.

Os objetivos do público ao consumir notícias

A partir da premissa de que a relação do público com o noticiário vai além da expectativa de que ele entregue fatos, os pesquisadores responsáveis pelo estudo identificaram cinco grandes objetivos que os leitores têm ao se informarem, classificados em ordem de importância.

Os dados mostram que orientare calibrarsão os mais importantes. No entanto, os seis objetivos desempenham papel significativo  Escapare sobreviver ficam no meio, à frente de conectare prosperar.

84% – Orientar:associado à compreensão dos eventos que se desenrolam ao nosso redor, na prática traduz-seem ler as manchetes e saber o que está aconecendo.

83% – Calibrar, no sentido de explicar o contexto e o que outros pensam a respeito de um determinado assunto

78% – Desconectar, usando as informações obtidas pelos meios de comunicação para escapar da realidade cotidiana

75% – Sobreviver, usando o noticiário como recurso para afastar riscos ou pelo menos evitar contratempos capazes de alterar planos

73% – Conectar, em que a informação é usada para engajamento e entendimento das outras pessoas

72% – Prosperar, usando a informação para atingir sucesso ou aprender algo fora do universo profissional

Como cada fonte de notícias ajuda a atingir os objetivos?

O acompanhamento por 24 horas das pessoas pesquidas permitiu determinar em um ambiente natural o principal motivo de consumo notícias em cada ocasião pelos diversos meios – lendo, assistindo ou ouvindo.

A TV aparece em destaque nos três objetivos. Este pode ser um reflexo decorrente da penetração da BBC no Reino Unido, que talvez não se aplique a outros países.

Mas há no trabalho impressões que podem ser consideradas universais:

  • O objetivo de orientar é o mais simples de ser atingido. A TV é frequentemente usada para isso, porque seu conteúdo requer menos esforço para ser processado.
  • Jornais também desempenham papel importante no cumprimento desse objetivo, em grau maior do que rádio e mídias sociais. Jornais (e seus canais digitais) foram percebidos como importantes para grandes acontecimentos e para notícias de última hora: 70% dos pesquisados concordaram com a frase “você pode confiar nos jornais para estar em dia com as notícias recentes”.
  • Orientar tende a ser uma meta matinal, assim como sobreviver.Meios considerados mais passivos (TV e rádio) figuram como opção primária para uma visão superficial dos acontecimentos do dia.
  • Jornais também aparecem com destaque em orientar, assim como para os objetivos sobreviver – neste momento mais do que nunca – e escapar, o que é atribuído ao conteúdo diversificado desse meio. A grande maioria dos consumidores de notícias (82%) concordou com a afirmação “os jornais trazem uma grande variedade de notícias, até mesmo histórias sobre as quais você não tinha ouvido falar”. E 72% concordam que “um mundo sem jornais seria cinza e chato”.
  • Conteúdo de TV e redes sociais também aparecem relacionados ao objetivo escapar.

O estudo destaca a importância da variedade de fontes contribuindo para o público consumidor de notícias atingir os três objetivos principais – orientar, sobreviver, escapar. Reconhece que isoladamente os jornais não são a única forma de os atingir, mas defende que sua combinação com as outras alternativas é significativa.

Nos objetivos seguintes – calibrar, conectar e prosperar – os jornais lideram em relação às demais fontes. Calibrar aparece como uma metaimportante para as pessoas – 82% dos consumidores de notícias concordam com a frase “o noticiário me ajuda a entender questões complexas”, enquanto oito em cada dez concordam que “o noticiário é uma boa maneira de saber o que outras pessoas pensam”.

“O acompanhamento diário do consumo de notícias demonstrou que jornais são inegavelmentea mais imporante fonte de notícias para alcançar esse objetivo”.

Aí veio a pandemia… e pouca coisa mudou

Antes da pandemia, em fevereiro, e depois dela, em agosto, os índices mantiveram-se semelhantes:

A estabilidade não é surpreendente levando-se em conta que esses objetivos e motivações são resultado de evolução do ser humano ao longo de milênios. Embora no curto prazo o peso dos objetivos tenha apresentado ligeiras mudanças, todos continuaram importantes para as pessoas, pois, em última análise, constituem-se na essência do ser humano.

O trabalho observou que, previsivelmente, os objetivos de orientar e sobreviver assumiram uma relevância ainda maior na crise do coronavírus. Orientar tornou-se especialmente necessário no auge do lockdown, passando de 84% em fevereiro para 89% em agosto, com os jornais reconhecidos por entregar informação vital para a grande maioria do público.

Embora para pessoas mais velhas os briefings diários de notícias na televisão tenham ajudado a atingir esse objetivo no curto prazo, para aqueles abaixo de 35 anos os jornais ganharam relevância ainda maior. O objetivosobreviver mostrou-se altamente relevante na crise, passando de 73% em fevereiro para 80% em agosto.

Os objetivos escapar e conectar declinaram durante a pandemia, o que é atribuído à dominância de temas relacionados à Covid-19 no noticiário.

A pandemia não afetou os objetivos calibrar e prosperar, demonstrando que entender as notícias e o mundo ao redor continuou essencial. E que, apesar da turbulência, o desejo de progredir e ter sucesso é intrínseco para muitas pessoas, o que ficou evidenciado por declarações de entrevistados revelando ter usado o tempo de isolamento para aprimoramento pessoal com ajuda do noticiário.

Jornais e outras fontes: há diferenças?

Por ter sido feita por uma entidade ligada ao meio jornal (e seus canais digitais), é natural que a pesquisa da Newsork tenha explorado diferenças destes em relação a outras fontes. O trabalho sustenta que, além de reportar os fatos, os jornais iopinam sobre eles. E isso não é visto com um fator negativo, segundo os que participaram do estudo.

Mas há limites. O excesso de opinião nas redes sociais não agrada aos britânicos: 53% declararam-se ansiosos ao receberem notícias por redes sociais. E 63% disseram-se menos ansiosos com notícias lidas nos jornais do que com aquelas obtidas por mídias sociais, criticadas por apresentarem as informacões de forma menos estruturada para 76% dos que participaram do estudo.

O índice menor do meio TV em relação a jornais e mídias sociais é certamente influenciado pela BBC, da qual espera-se imparcialidade devido à sua condição de emissora pública – ainda que venha apanhando de todos os lados do espectro político nos últmos meses pela suposta ausência de neutralidade. A mesma pequisa aplicada em outros países cuja principal emissora não seja estatal talvez chegasse a resultados diferentes.

Também merece registro a percepção do YouTube como fonte de informação com opinião. Ainda que abrigue uma miríade de canais claramente indentificados com correntes de pensamento diferentes no Reino Unido, incluindo as de extrema-direita, sua posição na pesquisa da Newsworks só perde para a das revistas. Na hora da opinião, os bons e velhos jornais mantiveram seu peso.

Fadiga da notícia, problema recorrente

O trabalho da Newsorks faz uma certa ginástica para amenizar aquela que tem sido apontada como ameaça para o jornalismo: a fadiga da notícia. Reconhece que 61% das pessoas abaixo de 35 anos admitiram evitar notícias por considerá-las “deprimentes”, percentual que cai para 47% entre aqueles acima de 35.

Mas faz a defesa dos jornais ao defender que não são exatamente eles que essas pessoas tentam evitar. Afirma que 73% delas sentem-se menos ansiosas quandoleem notícias em jornais consagrados em comparação ao sentimento em relação a notícias recebidas pelas mídias sociais.

Diferença de opiniões dos jornais incomoda?

Segundo o estudo da Newsworks, não. Ele sustenta que a percepção de que os jornais manipulam a opinião pública não se confirmou no estudo.

“A chamada ‘imprensa‘ consiste em uma rede de opiniões divergentes, que competem umas com as outras, questionando e debatendo temas e proporcionando aos leitores um equilíbrio de posições”.

A tecnologia é apontada como instrumento para facilitar o público a confrontar posições de jornais diferentes e formar a sua própria opinião. O trabalho mostra que 65% dos pesquisados declararam gostar de ler vários jornais para conhecer opiniões variadas. E, referendando a diversidade de opiniões da imprensa britânica, 79% aprovam o fato de que os jornais do país manifestam posições difererentes sobre o mesmo fato.

Viva a diferença.

A íntegra do relatório está aqui.

Luciana Gurgel, Coordenadora editorial do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association). luciana@jornalistasecia.com | @lcnqgur 


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A pesquisa da Newsworks mostrou que o jornalismo conservou os índices de confiança ganhos nos primeiros meses da pandemia. Embora 42% dos abaixo de 35 anos tenham dito que usaram mais as mídias sociais, sete em cada dez disseram-se menos ansiosos em relação a uma informação transmitida por elas depois de checá-la em um jornal. 

 

 

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Luciana Gurgel, Coordenadora editorial do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association). 

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