Campanha Global pela Liberdade de Imprensa, com Amal Clooney, tenta chamar atenção para o assunto, que perdeu espaço na pauta nos últimos 16 anos

  • Mas no balanço do primeiro ano o nome mais citado foi… George Clooney

 

Por Aldo De Luca | MediaTalks, Londres 

O tema liberdade de imprensa vem ocupando cada vez menos espaço na imprensa nos últimos 16 anos. E de uns tempos para cá também no Twitter e nas buscas do Google.

Essa foi a conclusão do primeiro relatório encomendado pela Global Campaign for Media Freedom, iniciativa conjunta dos governos do Reino Unido e Canadá, lançada  em julho do ano passado, tendo Amal Clooney como embaixadora. O levantamento foi feito pela City University de Londres e pela Universidade de East Anglia, considerando notícias online em língua inglesa, comentários do Twitter e as buscas no Google sobre liberdade de imprensa. 

A queda na cobertura não foi o único ponto lamentado pelos pesquisadores. Eles destacaram: 

“Infelizmente, George Clooney também foi mencionado com frequência nas notícias online sobre a Campanha Global pela Liberdade da Mídia (25%), registrando mais menções do que o jornalista assassinado Jamal Khashoggi  e do que as Nações Unidas – apesar de não estar envolvido na iniciativa”.

O objetivo da campanha foi justamente chamar a atenção para o tema, num momento em que mais da metade da população mundial vive em países nos quais a liberdade de expressão é classificada como “em crise”.  E quando ameaças à liberdade de imprensa acontecem até mesmo em nações democráticos da Europa, como mostrou pesquisa feita pelo Conselho da Europa envolvendo jornalistas investigativos de 18 países da região

Aumento da cobertura nas datas comemorativas 

O relatório apontou alguns picos na cobertura, ocorridos em eventos anuais como o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa em 3 de maio, e o Dia Internacional pelo Fim da Impunidade para Crimes Contra Jornalistas, em 2 de novembro.

“Isso indica que esses dias específicos desempenham um papel vital em chamar a atenção para uma questão que normalmente recebe pouca atenção”, disseram os acadêmicos da City University e da University of East Anglia,

Os acadêmicos constataram também que o tema recebeu níveis “relativamente altos” de atenção na imprensa em comparação com iniciativas semelhantes da ONU e mais do que a maioria das outras questões internacionais de direitos humanos. A notícia pode ser boa ou ruim, dependendo do índice da cobertura da base de comparação.

Khashoggi foi o caso de liberdade de imprensa de maior interesse

O estudo mostrou que o caso de maior repercussão recente foi o do correspondente do Washington Post Jamal Khashoggi que desapareceu em 2018 depois de entrar na embaixada saudita de Istambul.

A cobertura sobre seu desaparecimento foi oito vezes maior do que a obtida pelos outros nove dos dez casos de liberdade de imprensa mais urgentes apontados em julho de 2020 pela One Free Press Coalition.

De julho de 2019, quando foi lançada a Campanha Global para a Liberdade de Imprensa, até julho deste ano, Khashoggi, o caso mais rumoroso sobre o tema, foi mencionado 1.346 vezes (25% da cobertura analisada). No mesmo período, na cobertura relacionada à campanha, o ator George Clooney foi citado em 1.362 vezes, mesmo sem ter se envolvido em nenhuma das suas atividades, mas apenas por ser marido da embaixadora da iniciativa.

Visibilidade de políticos e celebridades 

Os resultados do estudo confirmam a tese de que celebridades envolvidas em campanhas ajudam e muito a obter visibilidade. Ainda que George Clooney não estivesse participando da ação diretamente, o estudo mostrou que algumas matérias mencionaram sua posição política contrária a Donald Trump, cujas relações com a Arábia Saudita eram mencionadas nas matérias sobre Khashoggi publicadas à época. 

E Amal Klooney, que combina o perfil típico de uma celebridade (bonita, elegante, casada com um ator admirado) com o de uma ativista de direitos humanos reconhecida, foi uma escolha acertada para chamar a atenção para a causa da liberdade de imprensa. Um tweet da Reuters anunciando sua liderança da campanha superou 20 milhões de visualizações.

Ela acabou deixando o posto de embaixadora há dois meses, reagindo à posição do Reino Unido em relação ao cumprimento dos termos do acordo do Brexit celebrado com a União Europeia. Mas enquanto esteve envolvida com a campanha, atraiu atenção para ela. 

Não é a única polêmica envolvendo a campanha. Na época da conferência, jornais mais críticos, como o The Guardian, abriram espaço para um relatório de uma comissão parlamentar questionando, entre outras coisas, o fato de o Governo britânico, que sediava a conferência não estar sendo assertivo no caso de Khashoggi. 

E Jeremy Hunt, então secretário de Relações Exteriores, que ficou à frente do encontro, teve seu interesse particular no tema liberdade de imprensa naquele momento associado a planos de concorrer ao cargo de primeiro-ministro. Ele chegou a anunciar a criação de um comitê de proteção a jornalistas, que ainda não foi implantado no país. 

Liberdade de imprensa na pauta 

Com ou sem celebridades envolvidas, o trabalho mostra que é preciso atenção para que a causa da liberdade de imprensa não saia da pauta da própria imprensa. E que não seja contaminada por outros interesses. 

O trabalho completo está aqui


Aldo De Luca,  Conselheiro e colaborador do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileiro radicado em Londres. Formado em Jornalismo pela UFF (Universidade Federal Fluminense), foi repórter especial do jornal O Globo em 1987 e 1988. Fundou junto com Luciana Gurgel a agência Publicom, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group).  Além de jornalista,  é Engenheiro pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Integra a  FPA (UK Foreign Press Association).

 


Leia também:

O estudo do Conselho da Europa mostrando ameaças à liberdade de imprensa em 20 países da região

 

 

 

relatório da ONG Article 19 que mostra queda da liberdade de expressão na última década, e destaca o Brasil como um dos países onde ela mais caiu. 

 

O acordo feito pelo governo britânico com as plataformas digitais para apertar o cerco contra a desinformação relacionada à vacina contra a Covid-19

 

 

 

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