A crise do New York Times por causa da estrela da redação que baseou o podcast Caliphate em relato de jovem preso por farsa

  • Caso ilustra a ilustra a tese de “viés de confirmação”, a vontade de acreditar em histórias ou fontes de credibilidade duvidosa, que pode induzir jornalistas a erros graves
  • Após crítica contundente escrita pelo correspondente de mídia do próprio jornal, matérias anteriores da repórter estão sendo revisadas por um editor sênior

 

Por Aldo De Luca | MediaTalks Londres 

A capacidade de um veículo de comunicação construir e destruir reputações é proporcional ao seu tamanho e abrangência. É de se supor que grandes organizações jornalísticas globais esmerem-se em desenvolver e aperfeiçoar controles para evitar falhas individuais ou uso de expedientes pouco elogiáveis para conseguir furos. 

Mas não é necessariamente o que acontece na prática.

A BBC enfrenta uma tormenta por causa da denúncia de que a famosa entrevista com a princesa Diana em 1995, considerada por muitos como “a entrevista do século”, foi obtida com a providencial ajuda de documentos forjados pelo repórter para convencê-la de que estava sendo espionada e assim decidir revelar os segredos da infidelidade e dos transtornos alimentares.  

Embora coloque em questão os valores da emissora devido aos sinais de que houve uma operação-abafa conduzida pela diretoria de então, o caso ocorreu há longínquos 25 anos. Mas histórias assim não ficam no passado. O confiável e respeitado The New York Times atravessa uma crise novinha em folha, que reúne elementos semelhantes aos da história da BBC: atos individuais de um profissional e pouca ação da chefia para apurar ou admitir falhas que parecem ser evidentes. 

A bomba desta vez explodiu no colo de Rukmini Callimachi, uma das mais importantes correspondentes do jornal, especializada em terrorismo. Contratada em 2014, logo tornou-se uma das estrelas mais brilhantes da redação, protagonizando coberturas internacionais como as da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. 

Em 2018, lançou o premiadíssimo podcast Califado, que lhe garantiu a terceira indicação como finalista do cobiçado Prêmio Pulitzer de reportagem internacional. Com a prisão da principal fonte da série pela polícia canadense, a credibiliade da história foi colocada em dúvida. E o mais duro ataque veio de dentro de casa: o colunista de mídia Ben Smith não deixou pedra sobre pedra em um artigo, publicado no próprio jornal, no qual questiona a conduta da repórter e dos chefes. 

O caso ocorre 17 anos depois de outra crise envolvendo a credibilidade das matérias de um dos repórteres do New York Times. Não chega a ser má-fé como foi a do repórter Jayson Blair, demitido em 2003 por plagiar e forjar 36 das 73 reportagens publicadas ao longo de cinco meses, o que causou na época a demissão de dois editores e a criação de uma comissão interna para reforçar os controles da redação e evitar a repetição de casos semelhantes.  

Mas pode causar grande estrago. E serve como exemplo para inspirar redações em todo mundo a repensarem controles e reação quando um deslize − mesmo que involuntário − acontece. 

Grande aposta do NYT, podcast tornou acessíveis os conflitos distantes

O podcast, em 10 capítulos, foi uma grande aposta do jornal e atraiu grande audiência, graças à narrativa em estilo cinematográfico de Callimachi, que transformou conflitos distantes em histórias acessíveis ao público norte-americano. Nascida na Romênia comunista, sua família fugiu do país quando tinha 5 anos, tornando-se refugiada na Suíça antes de ir para os Estados Unidos. 

Em 2006, Callimachi ingressou na Associated Press e foi enviada como correspondente ao Senegal. Tornou-se chefe do escritório da África em 2011 e dois anos depois começou a cobrir terrorismo, quando residentes da cidade de Timbuktu, no Mali, a levaram aos prédios que haviam servido de quartel-general da Al-Qaeda. Lá encontrou milhares de documentos que demonstravam que os lideres da Al-Qaeda no Golfo forneciam orientação no campo de batalha para seus subordinados no Mali. 

A partir de 2014 passou a brilhar nas páginas do New York Times e Califado vinha sendo considerado como um dos pontos altos de sua carreira. Até setembro deste ano.

Relatos do podcast foram simplesmente inventados, acusa polícia canadense

O problema é que o podcast, no ar até hoje, é todo baseado nos relatos do canadense Abu Huzayfah, recheados de sangue e de ferozes atrocidades que ele teria cometido como combatente do Estado Islâmico na Síria. 

Na verdade, seu nome verdadeiro é Shehroze Chaudhry, um jovem de 25 anos nascido em Toronto e preso em setembro pela RCMP (Polícia Montada Real Canadense) por farsa de terrorismo, sob a acusação de falsificar seu passado como combatente do Estado Islâmico. Os detalhes da investigação ainda não são públicos. 

E o pior: Chaudhry pode nunca ter estado na Síria, e as histórias que contou no podcast sobre assassinatos e destruição teriam sido simplesmente inventadas.

Colunista de mídia do NYT sentencia: caso obscurece Callimachi e o próprio jornal

A prisão em Toronto causou ondas de choque que fizeram estremecer a redação do jornal em Nova York, onde o colunista de mídia Ben Smith não poupou a correspondente, os editores que a supervisionaram e nem as práticas de seu empregador.

Contratado este ano pelo jornal depois atuar como editor chefe do BuzzFeed News desde sua criação, há oito anos, Smith pesquisou todo o caso e os envolvidos para escrever uma ampla reportagem em sua coluna de 12 de outubro, mostrando uma série de lapsos de julgamento e de decisões de não levar em conta contradições, tanto por parte da correspondente como de seus editores. Seu julgamento final foi avassalador:

“Callimachi agora enfrenta críticas intensas de dentro e de fora do NYT. Mas, embora parte da cobertura a tenha retratado como uma espécie de atriz desonesta, minha reportagem sugere que ela estava entregando o que os líderes mais antigos da organização pediam, e com seu apoio”.

Jornal sabia das inconsistências da fonte antes do lançamento de Califado

Smith contou em sua coluna que, ao serem apresentados ao roteiro de Califado, os editores Michael Slackman e Matt Purdy alertaram os produtores a história parecia depender da credibilidade de um único personagem, “o canadense cujas histórias vívidas de execução de homens enquanto sangue quente espirrava por toda parte eram tão sinistras quanto não corroboradas”.

Para salvar o projeto que acabara de anunciar, o The New York Times, segundo a apuração de Smith, começou então um esforço frenético para tentar confirmar o relato de Abu Huzayfah. Em todo o Oriente Médio, repórteres do jornal foram solicitados a encontrar a confirmação dos laços da fonte com o Estado Islâmico, mas só descobriram que os desertores do grupo nunca tinham ouvido falar dele.

Jornalistas nos Estados Unidos também foram acionados e o máximo que conseguiram foi a confirmação de duas fontes de agências de inteligência de que Abu teria ligações com o Estado Islâmico, mas sem confirmação de que estivera na Síria.

Apesar da falta de confirmação, jornal decidiu seguir em frente

Mesmo sem conseguir comprovar a credibilidade da fonte de Callimachi, Smith conta que o jornal decidiu avançar com o projeto do podcast. O lançamento foi feito um mês depois, em abril de 2018:

“O primeiro episódio de Califado foi lançado marcando um grande passo do NYT em suas ambições multimídia, promovido com uma campanha de marketing brilhante, que apresentava uma imagem atraente, com os destroços de Mossul de um lado e o rosto da correspondente Callimachi do outro”.

Inconsistências só foram apresentadas no sexto capítulo, mas sem desmascarar a fonte

Ao analisar o caso, Erik Wemple, colunista de mídia do Washington Post, disse que Califado seguiu uma narrativa “maluca”, apresentando a história de Abu Huzayfah durante mais de seis longos episódios antes de perguntar se ele poderia não ser real. “Em duas passagens horríveis, Abu descreve a execução de dois homens”, escreveu Wemple. “Menos onipresentes são os avisos de Callimachi de que talvez esse sujeito não estivesse dizendo a verdade”.

Em sua coluna, Smith concordou com a crítica do jornal concorrente:

“O que está claro é que o NYT deveria estar alerta para a possibilidade de estar reportando a história que queria ouvir − ‘torcendo pela história’, como disse Erik Wemple do Post”. 

“Tive que esfaqueá-lo várias vezes e deixar a adaga em seu coração”

A descrição de como Abu Huzayfah teria matado um traficante de drogas em seus tempos de combatente é uma das mais chocantes do podcast:

“O sangue era quente e se espalhava por toda parte. O cara chorou − estava chorando e gritando”.

Em outra passagem, Huzayfah narra outra execução que teria feito:

“Eu tive que esfaqueá-lo varias vezes. E então o colocamos numa cruz. E eu tive que deixar a adaga em seu coração”.

Mas seu alter-ego Shehroze Chaudrhy, de 25 anos, garantiu em entrevista a Stewart Bell, do canadense Global News, que nunca matou ninguém. O jornalista apurou que seu relato de ter ingressado no Estado Islâmico no início de 2014 não bate com seu histórico acadêmico, que indica que foi aluno do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade de Lahore, no Paquistão, no mesmo ano.

Segundo o Global News, Chaudrhy viajou de fato para o Paquistão no final de 2013 para estudar na Universidade de Lahore. Ao terminar os estudos, em 2016, voltou para Toronto, quando começou a postar nas redes sociais que tinha estado na Síria.

Escreveu que atuara no campo de batalha como ex-membro do Estado Islâmico, estacionado em Manbij, Raqqa e Rabia. O jornalista ressalta que o acusado, em seu perfil no Facebook, atende por dois nomes − o da vida real e o do personagem do podcast.

 

Armas como objetivo

Desde 2016, Chaudrhy trabalha no restaurante da família, mas suas postagens passaram a ser acompanhadas pelo MEMRI (The Middle East Media Research Institute), que mantém em Washington o JTTM (Jihad and Terrorism Threat Monitor). 

O Instituto chegou a distribuir um relatório a seus assinantes sobre Chaudrhy, que classificou como “usuário ativo do Facebook, que ocasionalmente posta itens anti-Assad e anti-Israel e revela entusiasmo por combate e armamento”. 

O relatório inclui uma das fotos compartilhadas por Chaudrhy no Facebook, que mostra prateleiras de tênis como “objetivos de outros rapazes”. Na parte de “meus objetivos” apresenta vários tipos de armamentos.

Bravatas na imprensa levaram à prisão

Mas não foram as postagens que levaram ao indiciamento de Chaudrhy. Na verdade, ele nunca esteve nas listas de canadenses acusados de terrorismo ou de simpatizar ou pertencer ao Estado Islâmico.

A acusação baseia-se em seus relatos amplamente divulgados a partir do podcast como ex-combatente do Estado Islâmico, o que gerou discussões no parlamento canadense sobre um potencial perigo terrorista à solta no país e pressão para que o governo fizesse algo a respeito.

O jornalista Stewart Bell ressalta que o indiciamento por farsa de terrorismo é raramente usado no Canadá. A pena máxima é de 5 anos de prisão. A seção do Código Criminal é usada para processar aqueles que forjam ameaças e se baseia na premissa de que mesmo alegações falsas de terrorismo espalham o medo e consomem os recursos da policia. 

No Twitter, Callimachi defendeu seu trabalho

No mesmo dia da prisão de sua fonte, a correspondente Callimachi fez postagens no Twitter defendendo seu trabalho. Em post para seus 400 mil seguidores, ela disse que a “tensão narrativa” do podcast Califado seria justamente a de saber se a história de Abu Huzayfah era verdadeira ou não.

Em sua defesa, Callimachi ressalta que o capítulo 6 do podcast faz referência às dúvidas sobre a credibilidade de Abu Huzayfan, depois que a equipe descobriu que ele tinha mentido ao relatar que estava na Síria no momento em que o califado fora instituído, em julho de 2014.

Callimachi foi alertada por membro da equipe de que fonte poderia estar mentindo

O capítulo 6 começa com Callimachi dizendo que sentira uma “sensação de afundamento no estômago” quando descobriu que os vistos de entrada e saída do passaporte canadense de sua fonte não batiam com os lugares onde ele dizia ter estado. Em duas passagens na parte inicial do podcast ela diz:

“Essas coisas estão me irritando”. “Se for ele realmente viajando, isso abrirá um buraco em toda a sua história. Então, o que está acontecendo?”.

Callimachi é alertada por um dos membros da equipe sobre a possibilidade de a fonte estar fingindo ser outra pessoa, para atrair a atenção com situações intensas vividas pelo personagem inventado. Callimachi retruca:

“Não dá para inventar todos aqueles detalhes sobre execução, sobre como é segurar uma arma, sobre como é chicotear alguém, sobre o fato de que o sangue respingou em você. Isso seria um nível de invenção? É muito! Ele está fornecendo detalhes que ninguém sabe!”

Editora e correspondente não se rendem às inconsistências

O capítulo deixa claro que a fonte afirmara que ficara cerca de 8 meses na Síria no início de 2014, e os vistos do passaporte mostravam que isso seria impossível. Uma foto que ele apresentara como comprovação (que mostrava um homem encapuzado num rio), de acordo com as análises feitas, só poderia ter sido tirada no final do ano. Mas havia uma janela de cerca de oito meses entre o final do ano e início de 2015.

Apresentada aos fatos, a editora Wendy Dorr preferiu continuar acreditando:

“Acho que ele estava lá então. Ele te contou que estava em fevereiro? Foi no mesmo ano. Só foi muito mais tarde”. 

Callimachi também estava convencida: “E assim pensamos que as coisas começavam a fazer sentido novamente”. 

Correspondente e equipe enumeram o que sabiam e o que não sabiam

Durante o capítulo, Calimachi e sua equipe então enumeram o que sabiam sobre a fonte: 1) que sua história se encaixava no padrão de como as pessoas são radicalizadas pelo Estado Islâmico e se juntam ao grupo; 2) que as autoridades americanas acreditavam que ele era um membro do Estado Islâmico; 3) que ele se juntou ao Estado Islâmico na Síria; 4) que as autoridades canadenses o vigiam; 5) que mentiu sobre a linha do tempo de suas viagens e como entrou na Síria; e 6) que tinha conhecimento profundo sobre o Estado Islâmico a ponto de ter ensinado coisas a Callimachi.

E também listam o que não sabiam: 1) linha do tempo de suas viagens; 2) dias em que entrou e saiu da Síria; 3) como entrou; 4) com qual passaporte entrou, já que não havia registro no canadense e o paquistanês estava expirado; 5) se usara documento falso; 6) se haveria alguma confirmação secundária de que ele realmente atuara no Estado Islâmico além do relato dele.

Callimachi diz no podcast que precisavam de algo concreto que comprovasse que a fonte estivera na Síria − DNA, testemunha, ou alguma declaração ou documento. 

Callimachi conversa com fonte e se convence

A equipe então localiza um suposto pai de Abu, que falando em urdu disse que o filho nunca esteve envolvido com grupos de terroristas e que tudo era invenção. Callimachi então tem a oportunidade de falar ao telefone com sua fonte e o questiona sobre o que o pai dissera e sobre a impossibilidade de ele ter estado na Síria no início de 2014. 

Durante o telefonema, Abu diz a Callimachi que pediu ao pai para dizer que era invenção. E que estivera na Síria depois que o califado fora instituído. Callimachi pergunta o motivo da mentira e ele responde que as pessoas que foram à Síria no período pré-califado podiam alegar ajuda humanitária, mas os que foram depois já sabiam que a infâmia do Estado Islâmico era bem conhecida.

Depois dessa conversa, Callimachi diz que Abu entrou em pânico e mandou uma mensagem dizendo: “O que quer que seja publicado, vou apenas negar”.

Capítulo termina deixando a questão da credibilidade da fonte em aberto

Com a explicação, Callimachi decide não descartar Abu, mas buscar fontes dentro do Estado Islâmico para comprovar seu relato. Através de intermediários, fala com duas. A primeira é um comandante da polícia religiosa (Hisba) em Raqqa, na qual Abu disse ter atuado. O comandante disse que ele não estava em sua unidade, que não sabia dizer quem era, mas que o teria visto dentro do califado.

Um oficial administrador dos escritórios em Raqqa responsável pela distribuição de documentos de identificação dos novos recrutas disse que lembrava dele porque sua foto teria aparecido num pôster de “procurado” depois que ele teria abandonado o grupo.

Ao final do capítulo, Callimachi diz:

“Se o relato for verdadeiro, algo surgirá, como o pôster de ’procurado’. Até lá, meu caderno permanece aberto”.

Na sua coluna com a análise do caso escrita em outubro, Ben Smith faz referência ao sexto episódio, que detalhava as dúvidas sobre a história de Abu Huzayfah e os esforços do NYT para confirmá-la. Mas critica:

“A apresentação carregava uma suposição óbvia, embora implícita − o personagem central da narrativa não estava inventando a história toda”.

Sobre as fontes do Estado Islâmico ouvidas na tentativa de confirmar o relato, Smith escreveu em sua coluna:

Repórteres em busca de uma história assustadora encontrarão fontes terroristas ansiosas para ajudar a aterrorizar. E os jornalistas costumam confiar em fontes assassinas e não confiáveis ​​em situações em que os fatos são ambíguos. Se você errar, provavelmente não receberá uma ligação da assessoria de imprensa do ISIS pedindo uma correção”.

Callimachi apresenta evidências insuficientes para comprovar veracidade do relato

Em seus posts no Twitter, em setembro passado, Callimachi pergunta se o motivo pelo qual a polícia canadense não indiciara Abu Huzayfah por terrorismo fora porque não tinham conseguido provar que ele não estivera na Síria. Ela afirma que fontes de agências de inteligência norte-americanas teriam dito que ele estivera, e que ela e sua equipe teriam confirmado pela geolocalização de uma foto de seu telefone que ele estivera num rio na Síria.

Em sua coluna de outubro, Ben Smith descarta essas evidências. Quanto à foto do homem encapuzado atirando com uma pistola Glock, utilizando os recursos do Google Earth Pro a equipe do NYC em Nova York foi capaz de verificar que o atirador estava sobre um banco de areia formado no Rio Eufrates no período entre novembro de 2014 e fevereiro de 2015. Mas Smith ressalta:

“Um produtor de investigações visuais do jornal em Nova York confirmou que uma imagem de um homem encapuzado no telefone de Abu Huzayfah fora tirada na Síria, mas isso não confirmava que ele estivera lá”. 

Quanto às confirmações das agências de inteligência, diz Smith: “Um dos repórteres de Washington, Eric Schmitt, puxou um fio que parecia salvar o projeto:

‘O que duas autoridades do governo dos EUA em agências diferentes me disseram é que esse canadense era membro do Estado Islâmico’, diz ele no podcast. ’As autoridades acreditam que ele se juntou ao Estado Islâmico na Síria‘.

Mas Schmitt e seus colegas nunca determinaram por que aquelas autoridades o viam como membro do Estado Islâmico, ou se de fato eles tinham qualquer evidência de suas conexões além dos pronunciamentos em suas mídias sociais”.

Colunista Ben Smith põe em dúvida outros trabalhos de Callimachi

Além de apontar as falhas cometidas na apuração de Califado, Ben Smith ressalta que, graças ao apoio de algumas das figuras mais poderosas do NYT e de ser vista como uma estrela do jornal, Callimachi vinha sobrevivendo a uma série de questionamentos levantados por outros jornalistas, acadêmicos de língua árabe e seus colegas baseados no Oriente Médio, incluindo os chefes dos escritórios em Beirute, Anne Barnard, e no Iraque, Margaret Coker.

Em sua coluna, Smith critica também outra matéria de Callamachi, publicada com destaque na edição de 28/12/2014, baseada no depoimento de um prisioneiro do Estado Islâmico, que atendia pelo nome de Louai Abo Aljoud. Ele diz na reportagem que teria feito contato visual com três reféns americanos mantidos pelos terroristas em Aleppo e que teria tentado denunciar o fato a um governo americano indiferente.

Smith apurou que a matéria havia sido oferecida ao The Wall Street Journal, que não a publicou porque os jornalistas não acreditaram na fonte. Na mesma linha, o jornalista sírio Karam Shoumali, que trabalhou no NYT de 2012 a 2019 e traduziu a entrevista para Callimachi, disse que a advertiu em vão para não confiar em Abo Aljoud. Smith reproduziu o que Shoumali lhe disse por telefone: 

“Parecia que a história estava pré-concebida em sua cabeça e ela estava procurando alguém que lhe contasse o que ela já acreditava, o que ela achava que seria uma ótima história ”

Depois da crise de Califado, Smith voltou a falar com Louai Abo Aljoud no início de outubro deste ano. Na entrevista, ele disse que tinha visto apenas um refém, não os três sugeridos na reportagem publicada. E contou que não percebeu até depois de sua libertação que tinha visto algum deles − ao contrário da impressão deixada pela matéria publicada. Smith diz que a matéria permanece no site do jornal, mas agora sob uma nuvem desconfortável de dúvida.

Matérias de Callimachi estão sendo revisadas por um dos principais editores do NYT

O baque foi tão grande que o NYT designou o editor-chefe da equipe de investigações, Dean Murphy, para revisar todo o processo de reportagem e edição, não só do podcast Califado como também de outras matérias de Callimachi.

Também designou um importante jornalista investigativo, com profunda experiência em questões de segurança nacional, Mark Mazzetti, para determinar se o canadense Chaudhry alguma vez pôs os pés na Síria, além de outras questões abertas pela prisão no Canadá.

Ex-colega sugere mudar o nome do podcast para farsa

A ex-chefe do escritório do NYT no Iraque mencionada por Smith, que deixou o jornal depois de desentendimentos com Callimachi e agora dirige uma startup de jornalismo investigativo, postou no seu Twitter: 

“Talvez a solução agora seja alterar o nome do podcast para #hoax?”


Aldo De Luca,  Conselheiro e colaborador do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileiro radicado em Londres. Formado em Jornalismo pela UFF (Universidade Federal Fluminense), foi repórter especial do jornal O Globo em 1987 e 1988. Fundou junto com Luciana Gurgel a agência Publicom, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group).  Além de jornalista,  é Engenheiro pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Integra a  FPA (UK Foreign Press Association).


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