Falsificação de documentos para conseguir a entrevista com a Princesa Diana, mais um fantasma a assombrar  a BBC 

 

Por Luciana Gurgel | MediaTalks, Londres 

A quarta temporada de The Crown (Netflix) tem nos últimos dias disputado espaço na imprensa e nas mídias sociais britânicas com dramas reais, como a ausência de um acordo com a União Europeia a seis semanas do Brexit e a quarentena do primeiro-ministro Boris Johnson por ter se encontrado com um parlamentar que testou positivo para o coronavírus. A série disparou uma corrida para comprovar ou desmentir histórias de um passado que parecia sepultado, envolvendo sobretudo a princesa Diana.

E acabou desenterrando um episódio que de tão inacreditável bem poderia ter sido inventado pelo autor Peter Morgan, que admitiu ter mesmo usado “licenças poéticas” na série: a explosiva entrevista que Diana concedeu à BBC há 25 anos foi obtida com a ajuda de documentos forjados usados para pressioná-la.

A conversa com o então jovem repórter Martin Bashir é tida nos meios jornalísticos britânicos como “a entrevista do século”, por ter revelado fatos íntimos do desastroso conto de fadas. Celebrizou a frase “há três pessoas nesse casamento” e expôs o transtorno alimentar da princesa. Foi assistida por 23 milhões de espectadores.

Mais um abacaxi para a BBC descascar

Curioso é que o Reino Unido sofre com a tradição dos tabloides sensacionalistas que muitas vezes adotam práticas heterodoxas em suas apurações. Desta vez, no entanto, foi a confiável BBC a valer-se de recursos que certamente não fazem parte de seu código de ética.

Pior: a história volta à tona justamente em um momento em que a rede vê-se ameaçada de perder sua principal fonte de financiamento, a taxa obrigatória paga pelas residências do país para ter acesso a seus canais.

A julgar pela movimentação em torno do caso, até parece que foi semana passada que o desconhecido jornalista do programa Panorama conseguiu o que o mundo inteiro tentava: uma exclusiva com a mulher mais famosa do planeta, falando com sinceridade devastadora para a família real.

Para convencer Diana, Bashir pediu a um designer da BBC para falsificar extratos bancários que comprovariam um dos medos da princesa: o de estar sendo vigiada pelo serviço secreto. E assim ela teria concordado em falar, adicionando o requinte de crueldade de pedir que a entrevista fosse ao ar no dia do aniversário do ex.

Não é o primeiro repórter a lançar mão de expedientes discutíveis para conseguir um furo. Mas em uma rede com a função pública como a BBC, é de assombrar. E joga luz sobre uma vulnerabilidade de empresas jornalísticas e de tantas outras: controles para identificar falhas individuais.

A extensão dos erros da imprensa

Os danos causados por erros corporativos variam conforme o tipo de organização. Em jornalismo, custam caro para a reputação de quem promete entregar notícia confiável e fiscalizar más práticas da sociedade. Mas podem custar ainda mais caro para o personagem da notícia.

No caso de Diana, muitos acham que lhe custou a vida. A instabilidade emocional e a crença de que estava sob vigilância a teriam levado a abrir mão da segurança oficial, vindo a morrer em um acidente no carro dirigido por um motorista despreparado e alcoolizado.

A BBC não está na berlinda apenas por não ter atuado preventivamente, mas também pelo que veio depois.

As denúncias feitas na época foram abafadas, embora tenham até sido publicadas pelo Mail on Sunday. Uma investigação interna isentou o repórter de culpa e acabou punindo… o designer que forjou os extratos.

Agora, o irmão da princesa exigiu − e conseguiu − a reabertura do caso. A rede renovou as desculpas. Bashir, que atualmente é editor de religião, submergiu alegando graves sintomas da Covid-19. Mas foi fotografado semana passada caminhando na rua.

 

Um relato explosivo e cheio de detalhes para complicar ainda mais a história 

Em relato pessoal publicado pelo The Times nesta quarta-feira (18/11), o ex-repórter sênior do Panorama Tom Mangold, demitido após a história, disse que “o caso vai além de Bashir, dizendo respeito a como a BBC mentiu não apenas para esconder o fracasso de seus padrões editoriais (..) mas para proteger a  cadeia de comando que deveria compartilhar a responsabilidade pelo escândalo”. 

Ele aponta o então editor do Panorama (já falecido), Steve Hewlett, como responsável por encobrir o caso na época: 

Não pretendo ter provas – afinal, os acobertamentos são elaborados para não deixar impressões digitais -, mas todas as evidências apontam que Hewlett está por trás do acobertamento da BBC para proteger a si mesmo, a Bashir e a toda a empresa. Acredito que ele organizou pessoalmente uma operação da BBC para colocar a culpa do escândalo em imaginários “colegas invejosos, encrenqueiros e vazadores” da equipe do Panorama . E quem era o colega ciumento (sem nome)? Eu.

Mangold foi demitido meses depois do episódio e diz ter escrito o relato com com profunda tristeza e sem vingança porque Hewlett era seu chefe e um editor de verdadeiro talento, em sua opinião. 

“Mas a verdade é que ele cometeu um erro catastrófico com a entrevista com Diana. Ele permitiu que Bashir, um profissional não testado, trabalhasse sem um produtor sênior do Panorama , que deveria estar constantemente ao seu lado, na maior e mais sensível história que o programa havia abordado.”

O veterano jornalista diz ser “uma lei imutável da BBC que repórteres de atualidades, independentemente de sua reputação e experiência, tenham produtores que são seus chefes e policiais pagos pela administração.

“Dado que Bashir não era um repórter da equipe, mas sim um freelance contratado, era ainda mais crucial para ele ser supervisionado em todas as etapas. Lançá-lo sem qualquer supervisão imediata desde o primeiro dia do projeto significava que Hewlett estava fazendo uma grande aposta, pois ele não teria controle nem consciência do perigoso comportamento ético de Bashir.”

Segundo Mangold, “para esconder essa falha administrativa, Hewlett teve que agir como um raio para criar e executar um encobrimento envolvendo seus chefes e uma assessoria de imprensa da BBC inconsciente. Ele teve que criar uma história falsa para explicar o escândalo, usando a autoridade da máquina de publicidade da própria BBC para sussurrar discretamente para a imprensa mundial. O inocente seria manchado, o culpado seria libertado”, afirmou no artigo publicado pelo The Times. 

Ele demonstra mágoa pela condução do caso: 

 “O  encobrimento criou a ficção de que o Panorama estava crivado de colegas invejosos de Bashir, encrenqueiros e vazadores, e que todos seríamos descobertos e demitidos. Foi tão bem-sucedido que todos os autores do escândalo receberam  aclamação, e dois funcionários totalmente inocentes tiveram suas carreiras destruídas e, no meu caso, minha reputação manchada”. 

A partir daí, o jornalista conta com riqueza de detalhes os acontecimentos que vieram a seguir, registrado dias e locais de conversas com interlocutores. 

E finaliza:

“Por favor, minha querida BBC, não vamos nos juntar à moda venenosa dos fatos alternativos quando só pode haver uma verdade. Você sabe qual é e onde se esconde. Então, esvazie agora todos os seus armários escuros”.

Príncipe William reforça pressão sobre a BBC 

No mesmo dia, o caso escalou ainda mais com a manifestação do príncipe William, filho da princesa, engrossando o coro dos que pedem investigação rigorosa, estampada nos principais jornais do país na quinta-feira (19/11). 

 

New York Times também vive constrangimento

O caso da BBC pode parecer coisa do passado, inferindo-se que nos dias de hoje organizações jornalísticas sérias mantêm controles rigorosos. Mas o New York Times enfrenta um constrangimento semelhante.

Em outubro, a premiada jornalista Rukmini Callimachi, especializada em cobertura do Oriente Médio, viu-se engolfada numa controvérsia depois da prisão de um canadense que se fazia passar por ex-membro do Estado Islâmico. Ele foi o personagem principal de uma série de podcasts estrelada por ela em 2018.

O caso foi noticiado por vários veículos, incluindo o próprio Times, cujo colunista de mídia Ben Smith foi duro com a própria casa. Agora, toda a produção da jornalista está sendo questionada.

De novo, o que aparenta ser resultado de falta de controles volta a arranhar reputações.

Assim como fez a BBC há 25 anos, a direção do jornal vem bancando a história. Manteve o podcast no ar, com a ressalva de que a fonte falou sob pseudônimo − deixando de levar em conta que a policia canadense afirma ser ele um farsante.

Será que daqui a um quarto de século o NYT terá que se desculpar também?


 

Luciana Gurgel,  Coordenadora editorial  do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association). 

 


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