Desinformação associada a motivos religiosos pode prejudicar aceitação da vacina contra Covid-19 na América Latina, alerta estudo

  • Foram analisados mais de 14 milhões de posts em três idiomas para apontar as principais narrativas antivacina e como as combater
  • Desinformação associada a motivos religiosos em espanhol foi maior do que nos idiomas inglês e francês somados
  • Alerta também para influência russa na desinformação sobre a pandemia na América Latina

 

Por Aldo De Luca | MediaTalks, Londres

 

O post em espanhol que afirma que o sangue de Cristo é a única vacina contra a Covid-19 é uma das mais de 14 milhões de mensagens analisadas pelo estudo Under the Surface: Covid-19 vaccine narratives, misinformation & data deficits on social media, realizado pela First Draft, organização com sede em Londres que se dedica ao combate da desinformação. 

Depois de analisar postagens em inglês, francês e espanhol de 41 países, o estudo destacou que houve mais publicações relacionadas à moralidade e religião em espanhol do que nos idiomas inglês e francês somados. E que 93% dessas postagens em espanhol foram encontradas em grupos do Facebook, sendo justamente a narrativa do sangue de Cristo como única cura contra o vírus a de maior apelo na plataforma. 

“Devido à força da Igreja Católica e às taxas crescentes de protestantes e evangélicos, somadas ao fato de que crenças religiosas já eram anteriormente barreiras para a aceitação de vacinas, essas narrativas tendem a ter uma influência desproporcional na América Latina e podem reduzir as taxas de imunização”, diz o estudo. 

O estudo se apresenta como o primeiro a analisar e comparar as narrativas em vários idiomas que podem estar conduzindo à não aceitação da vacina. Ainda que a First Draft não tenha examinado a desinformação em português, a análise em espanhol é a que mais se aproxima da realidade brasileira. Isso porque as postagens nas redes sociais nesse idioma foram esmagadoramente originadas na América Latina. De todas as páginas do Facebook analisadas, apenas 2% eram administradas a partir da Espanha, uma era baseada em Cingapura e outra na Rússia (sempre ela!). 

Deus e a vacina 

A narrativa do sangue de Cristo representou 67% do total de interações resultantes de postagens sobre moralidade e religião em espanhol. Outra sugere que qualquer preocupação com a Covid-19 é apenas um medo relacionado a este mundo, e que a salvação de Jesus é mais importante. Os pesquisadores identificaram especialmente no idioma espanhol narrativas confundindo os limites entre religião e vacina: 

“Essas postagens incentivam as pessoas a depositarem confiança na fé e a suplicarem a Deus ou aos santos para ‘iluminar’ ou ‘guiar’ os cientistas para encontrar uma vacina contra o coronavírus”. 

O relatório observa que essas narrativas apoiam a noção de que a intervenção sobrenatural é necessária para resolver a pandemia. Embora implicitamente apoiem a vacina, elas também mostram como a fé em Deus ainda se sobrepõe à crença na ciência em países de língua espanhola.

A First Draft enfatiza que, por se tratar de uma região onde a separação entre igreja e estado é tênue, a população é vulnerável à influência de líderes políticos e religiosos, citando como exemplo o Brasil. Segundo a organização, o percentual da população da América Latina que confia em vacinas é de 53%. Estudos afirmam que a adesão mínima necessária para garantir a imunização da população é de 55%.

Rússia tenta influenciar a informação sobre a pandemia na América Latina 

O estudo da First Draft ressaltou que matérias jornalísticas e vídeos da emissora RT (Russian Television, braço de propaganda russa na Europa) espalhados pelas redes sociais com idioma espanhol mostram que a Rússia tenta influenciar a América Latina na crise do coronavírus. 

Foi verificado também uma presença exagerada de conteúdo relacionado à vacina russa no idioma espanhol. Postagens defendendo e satirizando a vacina russa representaram 31% de todas as postagens no conjunto de dados. Houve mais postagens sobre a vacina russa em espanhol do que nos idiomas inglês e francês somados.

Latinos sofrem na pandemia, mas não perdem a piada

Os pesquisadores constataram que o humor teve bastante destaque nas redes sociais em espanhol, na forma de memes, vídeos ou piadas no próprio texto. Um exemplo foram os posts que sugerem que a vacina russa transformaria as pessoas em russos ou em comunistas.

Os pesquisadores identificaram também conteúdo destinado a questionar com humor os teóricos da conspiração, os pais que não vacinam seus filhos e as pessoas hesitantes sobre vacinas. No entanto, a First Draft ressalva que ainda não está clara a eficácia do humor na mudança de atitude: 

“A mensagem por trás de uma piada ou sátira raramente é universalmente aceita. Uma  postagem satírica que critica um político para um determinado público pode ser interpretada de forma diferente por partidários daquele político. E boa parte desse conteúdo carregado de humor apenas dá mais fôlego a teorias da conspiração e a narrativas antivacina. Mais pesquisas são necessárias para entender os efeitos de postagens satíricas, mas é provável que essas postagens estejam criando mais confusão do que clareza e propagando ideias que deveriam ser eliminadas”. 

A metodologia 

Ao estender o estudo a três idiomas, a pesquisa obteve um panorama mais completo sobre os fluxos globais da desinformação antivacina e foi capaz de analisar como as características culturais influenciam no processo. 

As postagens foram coletadas de junho a setembro, antes do anúncio dos testes positivos sobre o resultado das vacinas, em novembro. Todas incluem os termos “vacina” ou “vacinação” e foram extraídas de quatro fontes: Twitter, Instagram, páginas do Facebook e grupos públicos do Facebook.

Foram consideradas as 100 postagens de maior engajamento de cada uma das quatro fontes nos três idiomas, dando um total de 1.200 postagens, que representaram 13,1 milhões de interações. O Instagram e as páginas não verificadas do Facebook foram responsáveis por 71% do total dessas interações, incluindo curtidas, emojis, compartilhamentos e retuítes.

Cada postagem foi analisada buscando identificar sua narrativa e, num nível acima, o seu tópico. Dessa maneira, os pesquisadores chegaram aos seis principais tópicos gerais e por idioma, com suas narrativas mais relevantes. Além disso, mapearam as principais táticas utilizadas pelos propagadores das desinformações e deram recomendações sobre como combatê-las.

Três principais tópicos respondem por mais de 80% da desinformação

Nos três idiomas, os três tópicos de maior peso de desinformação antivacina foram “motivos políticos e econômicos”, “segurança” e “desenvolvimento e acesso”. Juntos, eles responderam por mais de 80% das 1200 postagens analisadas.

 

Analisando por idioma, os principais tópicos permanecem nas três primeiras colocações, mas com ordenações diferentes. Nos idiomas inglês e espanhol eles respondem por mais de 80% do total das postagens. No francês, respondem por 75%, devido ao maior peso das postagens associadas a teorias da conspiração.

 

 

Motivos políticos e econômicos preocupam mais os falantes de espanhol, enquanto segurança lidera nos idiomas inglês e francês

Os motivos políticos e econômicos por trás das vacinas são o principal tópico da desinformação em espanhol, com 35% do total. O tema ficou em segundo no ranking em inglês (29%) e em terceiro no francês (24,5%).

Narrativas que enquadram as vacinas como impulsionadas por motivos financeiros escusos ou por objetivos de reeleição míopes definiram grande parte da conversa desse tópico nas três línguas. 

Tais narrativas serviam também para minar a segurança das vacinas, já que “motivos políticos e econômicos” eram frequentemente retratados como trabalhando diretamente contra os objetivos de saúde pública.

Postagens ligadas a segurança, eficácia e necessidade das vacinas foram as líderes dos idiomas inglês (35% do total) e francês (26%). O espanhol foi o único idioma onde o tópico segurança não foi o principal, figurando apenas na terceira colocação, com 23% do total.

As postagens do tópico refletem a desconfiança das pessoas não apenas em uma futura vacina Covid-19, mas também na segurança das vacinas em geral. Na verdade, as referências específicas à vacina contra a Covid-19 apareceram em menos da metade de todas as publicações de “segurança, eficácia e necessidade” das vacinas. O estudo ressalta que doze meses antes da pandemia a Organização Mundial de Saúde já havia incluído a resistência a tomar vacinas em geral como uma das dez maiores ameaças à saúde global.

As postagens associadas ao desenvolvimento e fornecimento das vacinas ocuparam a segunda posição nos rankings espanhol (31%) e francês (25%).  O tópico ficou em terceiro no ranking inglês (16%), com metade das postagens do espanhol.

As postagens sobre a vacina “Sputnik V”, lançada no período da pesquisa, dominaram o tema em todos os idiomas, mas em geral com narrativas amplamente fora de contexto. Quase metade das postagens desse tema no idioma espanhol foram sobre a vacina russa.

Teorias da conspiração mais presentes em francês

O esforço antivacina turbinado pelas teorias de conspiração apareceu com mais força no idioma francês, com uma quantidade de postagens maior do que as dos outros dois idiomas somados. Enquanto no francês o conteúdo conspiratório respondeu por 16,5% do total, esse percentual foi quase a metade no inglês (8,5%) e quase nulo no espanhol (0,4%).

O Facebook foi o centro das narrativas conspiratórias em francês. A plataforma hospedou 64% do total de postagens do idioma sobre o tema, atraindo mais conteúdo conspiratório do que o Twitter e o Instagram juntos.

No geral, uma parcela de 10% das 1.200 postagens analisadas estava relacionada a teorias de conspiração. Nos três idiomas, a narrativa conspiratória dominante foi a de que as vacinas servirão como ferramentas para os indivíduos com microchip e desenvolver sistemas de rastreamento populacional em massa. Palavras-chave relacionadas ao termo microchip apareceram em quase 40% do conteúdo conspiratório total.

O Instagram (40%) e as páginas não verificadas do Facebook (44%) responderam por quase todo o conteúdo conspiratório verificado, com 84% dessa parcela. A desinformação associada a teorias de conspiração (116 postagens) superou aquelas ligadas às questões da liberdade (58) e da moralidade/religião (49) combinadas.

Antivacinação mais associada à liberdade no idioma inglês

A questão da liberdade associada à postura antivacina foi mais preponderante no idioma inglês, com mais postagens do que nos dois outros idiomas somados. Esse conteúdo foi muito associado a como os governos usarão as vacinas obrigatórias para desrespeitar os direitos individuais, e foi bastante impulsionado por usuários dos Estados Unidos, visto que 76% do material analisado em inglês foi publicado nas páginas de Facebook daquele país. 

Popular entre as postagens do tópico foi a ideia de que as vacinas são apenas mais um passo na marcha do governo para controlar a população norte-americana e, em alguns casos, até para transformar o país em um estado socialista. Esse argumento é particularmente potente porque, aos olhos dos que postam esse conteúdo, ele encadeia eventos cada vez mais privativos da liberdade, como máscara, isolamento e vacinas obrigatórios.

O total da desinformação relacionada à liberdade no idioma inglês foi de 9%, quase o dobro da encontrada em francês (5,5%). O apelo foi nulo no idioma espanhol, não tendo sido encontrada qualquer postagem de maior engajamento com esse tema.

Desinformação com motivos morais e religiosos foi a que teve menos postagens nos idiomas inglês e francês

Enquanto as postagens com motivos morais e religiosos em espanhol ficou em quarto lugar entre os seis tópicos analisados, com 7% do total, o tema foi o que teve menos apelo entre os falantes de inglês e francês.

Além de uma quantidade maior do que a dos dois outros idiomas somados, as postagens em espanhol com motivos religiosos e morais representaram o dobro das verificadas em francês (3% do total) e o triplo do inglês (2%).

 

As principais narrativas antivacina

A diferença entre os idiomas também foi verificada nas narrativas associadas a cada tópico, e algumas eram únicas para cada comunidade linguística. No geral, as principais foram: 

Motivos políticos e econômicos 

  • Interesses financeiros apressam o desenvolvimento de vacinas e prejudicam sua segurança

  • Líderes estão promovendo vacinas para ganhos políticos
  •  Governos e meios de comunicação corruptos servem como porta-vozes da Big Pharma e estão manipulando o medo para impor uma agenda pró-vacina

 

 

 

 

 

 

  • Bill Gates e instituições ou vacinas a ele associadas não são confiáveis  

Segurança

  •  A vacina é a “bala de prata” e quando for aprovada tudo estará resolvido imediatamente 

  • Um sistema imunológico saudável é mais poderoso do que uma vacina

 

  • A vacina Covid-19 não é necessária devido à eficácia da hidroxicloroquina
  • Vacinas de RNA e organismos geneticamente modificados (OGM)  não são seguras
  • As vacinas são frequentemente perigosas e podem até ser letais

Desenvolvimento e acesso

  • A Rússia venceu a corrida para encontrar uma vacina Covid-19
  • A vacina russa é segura e eficaz e uma grande esperança na luta contra o coronavírus 

Teorias da Conspiração

  • As vacinas são ferramentas para microchipar e controlar populações inteiras

  • Vacinas servem como ferramentas para programas de engenharia humana e redução do excesso de população

Liberdade

  • Começa com uma máscara, passa para as vacinas e termina com controle total
  • A vacinação obrigatória fere nossos direitos e a liberdade

Moralismo e religião

  • O sangue de Cristo é a única vacina contra Covid-19
  • Deus tem o poder de iluminar os cientistas para descobrir uma vacina contra o coronavirus

 

Instagram e Facebook impulsionam o discurso da vacina nas redes sociais

Duas plataformas responderam por por 71,5 por cento das 13.136.911 interações originadas pelas 1200 postagens analisadas. Foram o Instagram e as páginas não verificadas do Facebook, que provaram ser os maiores impulsionadores de interações de postagens relacionadas à vacina.

O estudo destaca a influência dessas duas plataformas no discurso da vacina nas redes sociais e ressalta que o Instagram costuma ser esquecido quando se trata de pesquisa de vacinas.

Ao contrário do francês e do espanhol, onde mais de 75 por cento das interações de postagens de vacinas ocorreram nas páginas do Instagram ou do Facebook, a distribuição das interações nas redes sociais inglesas foi mais equilibrada. 

“Essa distribuição enfatiza a importância de monitorar as narrativas e a desinformação das vacinas em todas as plataformas principais. O fato de o Instagram ter recebido mais interações de postagens relacionadas à vacina é um lembrete de que essa plataforma continua a ser um espaço importante, mas muitas vezes esquecido, para estudar o discurso da vacina”, ressalta o trabalho. 

Onde houver déficit de dados haverá desinformação sobre a vacina

A pesquisa mostra que os propagadores da desinformação antivacina estão se aproveitando dos déficits de dados sobre determinados temas, principalmente sobre os ingredientes das vacinas (organismos geneticamente modificados e alumínio foram citados em 29 postagens) e as novas tecnologias utilizadas para desenvolvê-las, como o RNA mensageiro. 

Um déficit de dados é a diferença entre o menor nível de oferta de informações precisas  ​​sobre um determinado tópico e o maior nível de demanda de pessoas querendo entendê-lo. A baixa oferta pode ocorrer porque a informação confiável está evoluindo, porque não está alcançando as pessoas de forma eficaz ou porque não existe.

Segundo os pesquisadores, grande parte da desinformação atual sobre vacinas é impulsionada pela necessidade de “criação de sentido coletivo”, por meio do qual as pessoas buscam entender a crise preenchendo coletivamente as lacunas de compreensão. O processo continuará até que as pessoas recebam as informações necessárias para eliminar o déficit de dados. 

 

O estudo alerta que quanto maior o déficit de dados, maior será a desinformação gerada para preencher esse vácuo. Os pesquisadores consideram mais efetivo um esforço proativo para fornecer as informações necessárias a fim de eliminar esses déficits e evitar o aparecimento da desinformação do que reagir com fact-checking e moderação de conteúdo online para tentar contê-la depois de sua propagação.

Além de esclarecimentos sobre os ingredientes e as tecnologias das vacinas, o estudo identificou a demanda por informações para eliminar outros déficits de dados apontados na análise das postagens: o significado de uma vacina segura, os incentivos dados às empresas farmacêuticas, os resultados de testes sem contextualização e muitas vezes tendenciosos para os interesses das farmacêuticas, a ilusão da “bala de prata” de que a crise acabará com a descoberta da vacina, a medicina alternativa e a espiritualidade “new age” que propagam um sistema imunológico saudável sem a necessidade da vacina e os supostos efeitos negativos de uma vacina oral contra a poliomielite.

Principais táticas e recomendações para combatê-las

Para aproveitar esses déficits de dados, os propagadores de desinformação usam táticas identificadas pelo estudo como o “conteúdo zumbi” (material antigo sobre outras vacinas revivido nesta crise), o “efeito camaleão” (adaptação de falsidades já desmascaradas com nova roupagem), a manipulação de manchetes reais (especialmente as que não contam a história toda no título) e a ampla utilização de recursos visuais, de conteúdo emotivo e vídeos longos.

O toque emocional agregado por qualquer tipo de dano causado às crianças, por exemplo, torna essa última tática particularmente eficaz, conforme evidenciado pelo sequestro da hashtag “saveourchildren” pelo movimento QAnon. Além disso, os vídeos longos representam um difícil desafio para as agências de fact-checking, dificultando ainda mais o monitoramento da desinformação no YouTube. Não é à toa que as fotos e vídeos representaram 51 por cento de todo o conteúdo analisado. 

Como recomendações, além da eliminação dos déficits de dados, o estudo orienta que se reconheçam as incertezas e medos das pessoas, construindo pontes entre os especialistas em saúde e os que hesitam em tomar a vacina, a fim de se reconstruir a confiança nas  instituições de saúde.

O diálogo pode ser a vacina contra a intolerância.

 

Aldo De Luca,  conselheiro e colaborador do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileiro radicado em Londres. Formado em Jornalismo pela UFF (Universidade Federal Fluminense), foi repórter especial do jornal O Globo em 1987 e 1988. Fundou junto com Luciana Gurgel a agência Publicom, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group).  Além de jornalista,  é Engenheiro pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Integra a  FPA (UK Foreign Press Association).

O conteúdo do MediaTalks by J&Cia pode ser reproduzido no todo ou em parte com citação da fonte e do autor. As imagens podem ter direitos autorais 


 

 

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