Meera Selva – Instituto Reuters 

“Sofrimento psicológico: é importante jornalistas experientes falarem de suas dificuldades e chefes assegurarem que buscar ajuda não prejudicará carreiras”, diz Meera Selva, do Instituto Reuters  

  • Instituto Reuters: 26% apresentaram Transtorno de Ansiedade Generalizada
  • 11% sofriam de Transtorno de Estresse Pós-Traumático
  • Especialista diz que cobertura da pandemia é tão estressante como a de guerras

 

Por Luciana Gurgel | MediaTalks, Londres

 

É difícil apontar pessoas ou categorias profissionais que não tenham sido emocionalmente afetadas pela pandemia. Mas algumas ficaram mais expostas ao sofrimento psicológico, como a dos jornalistas. A ponto de o Instituto Reuters para Estudos do Jornalismo ter decidido (em julho), antecipar os dados de uma pesquisa sobre o tema para dar às empresas jornalísticas a chance de agir rapidamente.

O estudo ouviu 73 jornalistas e revelou que a maioria deles, cerca de 70 por cento, sofria de algum nível de sofrimento psicológico.  

A pesquisa foi coordenada pelo neuropsiquiatra e  professor da Universidade de Toronto Dr. Anthony Feinstein e pela diretora do Journalist Fellowship Program do Reuters Institute for the Study of Journalism Meera Selva. 

Em entrevista ao MediaTalks, a pesquisadora destacou a importância de quebrar os preconceitos e buscar ajuda: 

“Romper o estigma é importante. Realmente ajuda quando jornalistas experientes e respeitados falam sobre suas próprias dificuldades e os chefes asseguraram que buscar ajuda não prejudicará a carreira de ninguém”. 

Ela observou também que as barreiras impostas ao trabalho foram elementos importantes para abalar o estado emocional dos profissionais, conforme demonstraram as entrevistas: 

“Jornalistas entrevistados relatam não serem capazes de fazer uma reportagem precisa e aberta, já que lhes foi negado o acesso à informação. Ou por trabalharem em regiões onde as leis dificultam questionar ou criticar abertamente as autoridades”.

A pesquisadora relatou que várias organizações jornalísticas estão atentas ao problema e passaram a oferecer apoio, na forma de aconselhamento e debates abertos.

Cobertura da pandemia tão estressante como a da guerra

O estudo baseia-se no trabalho de 20 anos do Dr. Feinstein no acompanhamento psicológico de jornalistas afetados por eventos extremos, incluindo os ataques terroristas de 11 de setembro e a guerra do Iraque.

Com base em sua experiência, o Dr. Feinstein afirma que a linha de frente da pandemia pode ser tão estressante e causar tantos distúrbios como a da guerra.

“Os maiores níveis de estresse acontecem quando se testemunha a morte de outras pessoas ou quando se corre risco de vida. Tanto na guerra como na pandemia se vivenciam essas situações. Prova disso é a quantidade enorme de jornalistas que morreram da doença, mais do que cobrindo guerras.” 

Ele diz que é necessário um treinamento dos líderes das redações e dos próprios jornalistas a respeito do tema, para que os limites seguros não sejam ultrapassados e não se comprometa a saúde mental dos profissionais. 

“A linha de frente deixou de ser a zona de combate e se transferiu para a porta um hospital e para nossas comunidades. Vivemos uma situação de alto estresse. Não podemos deixar que evolua para uma doença mental, que é tão incapacitante quanto uma perna quebrada ou um ferimento a bala cobrindo uma batalha.”

Barreiras impostas ao trabalho afetaram estado emocional

Neste  video , os dois autoras do estudo explicam o trabalho. 

Maioria de casos foi de ansiedade e estresse pós-traumático

Cerca de 26 por cento dos jornalistas que participaram do estudo em junho relataram sintomas compatíveis com Transtorno de Ansiedade Generalizada, que inclui sintomas de preocupação, sensação de nervosismo, insônia, baixa concentração e fadiga.

Outros 11 por cento dos entrevistados relataram sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, que incluem pensamentos intrusivos recorrentes e memórias de um evento traumático relacionado ao COVID-19, um desejo de evitar lembranças do evento e sentimentos de culpa, medo, raiva, horror e vergonha.

A amostra pesquisada era de jornalistas experientes, trabalhando em grandes veículos de comunicação, com uma média de 41 anos de idade e 18 de experiência. Pouco mais da metade (55%) tinha filhos e 58 por cento eram mulheres.

Motivos do aumento durante a pandemia

O Dr. Feinstein enumera cinco principais causas para o aumento do número de casos de jornalistas acometidos por transtornos psicológicos durante a pandemia.

Em primeiro lugar, a alteração da rotina e a falta da  habitual convivência na redação. Além da perda do apoio mútuo entre os colegas, o ambiente de trabalho em casa é mais estressante, com as demandas do lar e dos membros da família exigindo atenção constante.

As pressões online, com múltiplos fatores estressantes, a sobrecarga de trabalho e a incerteza econômica são outros fatores. Por fim, completa o quadro a cobertura dos assuntos ligados à Covid-19, ainda mais se o profissional é submetido a testemunhar o sofrimento ou a morte de doentes. 

Seis em cada dez com sobrecarga de trabalho

Sessenta por cento relataram trabalhar mais horas desde a pandemia. Uma entrevistada falou que “a combinação de trabalhar em home office e ao mesmo tempo tentar administrar a casa é impossível”.

Meera Selva considera que a sobrecarga de trabalho aliada à mudança de rotina foram dois fatores preponderantes:

“Essa tensão combinada de cobrir um tema novo e complexo, combinado com uma mudança dramática nos padrões de trabalho, pode ter contribuído diretamente para os altos níveis de angústia mental e ansiedade.”

Dosar carga de trabalho é a chave

Para assegurar a saúde mental, o Dr. Feinstein alerta para que não se trabalhe ao longo de todas as horas disponíveis do dia. 

“Seu compromisso com o jornalismo não pode ser maior do que com sua saúde. Todos temos necessidade de uma pausa. Não se sinta  culpado por passar um tempo com a família, fazer exercícios ou relaxar com seus livros, filmes e música.”

Danos psicológicos de jornalistas acima da média da população

A diretora Meera Selva reconhece que a população em geral também esteja sofrendo de taxas mais altas de sofrimento mental do que o normal, mas os jornalistas ainda parecem estar sob pressão acima da média, com mais ênfase sobre as mulheres:

“De acordo com estudos anteriores, há mais ansiedade, sintomas de transtorno pós-traumático e depressão em jornalistas do sexo feminino.”

O Dr. Feinstein diz que chama a atenção como a quantidade de transtornos psicológicos em jornalistas mulheres tem aumentado progressivamente. Há vinte anos, quando começou a acompanhar de perto o problema, o especialista lembra que a proporção era de 3 casos de homens para 1 de mulheres. Agora, o número de casos está distribuído igualmente entre os gêneros.

Quando pedir apoio psicológico

Com sua grande experiência, Dr. Feinstein explica que todos sofrem de ansiedade de tempos em tempos. Ele esclarece que o problema se torna uma doença que precisa de acompanhamento quando interfere na capacidade de trabalho ou começa a prejudicar  os relacionamentos e a vida pessoal do paciente.

Embora exista amplo material na internet a respeito de todas as doenças, o Dr. Feinstein alerta que, no caso dos distúrbios mentais, ninguém tem capacidade de fazer um diagnóstico mental objetivo de si mesmo.

Portanto, no caso de os transtornos começarem a afetar a vida profissional ou pessoal, ele recomenda que se solicite um apoio psicológico:

“As organizações têm responsabilidade moral de oferecer isso. Até porque um pessoa com transtorno psicológico vai afetar toda a redação.

Só metade teve acompanhamento especializado

Pouco mais de metade (52%) dos jornalistas entrevistados teve acesso a alguma forma de acompanhamento psicológico desde o início da pandemia. A pesquisa mostrou que aqueles que receberam terapia tiveram menos probabilidade de ficar ansiosos, angustiados ou apresentar sintomas de transtornos.

Os jornalistas participantes da pesquisa avaliaram o apoio recebido de suas organizações durante a pandemia com uma nota 6, numa escala de pontuação até 10. E deram a mesma nota para o nível de estresse de seu trabalho durante a pandemia.

Há 20 anos, não havia literatura médica sobre o tema

O Dr. Feinstein conta que começou a se interessar pela área de bem-estar emocional de jornalistas em 1999, quando uma correspondente de guerra que trabalhava na África foi encaminhada ao seu consultório. Ela tinha feito a cobertura de muitos conflitos e, ao longo dos anos, foi acumulando danos psicológicos que a levaram a um colapso.

O médico conta que ela se saiu muito bem na terapia e se recuperou totalmente. Mas o que mais lhe impressionou foi a resposta que recebeu quando perguntou porque ela não procurara ajuda antes. A jornalista disse: 

“Você não entende a minha profissão. Se eu tivesse dito ao meu editor que estava me sentindo assim, eles não teriam me mandado para a linha de frente e minha carreira como correspondente teria acabado.”

Intrigado, o Dr. Feinstein pediu a seus assistentes que lhe trouxessem o que já havia sido publicado sobre saúde mental de jornalistas. Sua surpresa foi maior ainda quando recebeu a resposta de que nada havia sido publicado. Decidiu então conferir na grande biblioteca da Universidade de Toronto. E também não havia nada lá. Foi então que tornou-se um pioneiro nas pesquisas e um dos maiores especialistas globais do tema.

Tratamento atual é muito eficaz

Outro ponto chave destacado pelo Dr. Feinstein é que todos os distúrbios psicológicos, como transtorno pós-traumático, depressão, ansiedade ou abuso de substâncias, podem ser atualmente tratados com eficácia. 

“Existem terapias psicológicas eficazes para esses distúrbios e você não precisa sofrer por causa disso e nem impor esse sofrimento aos demais. Os efeitos indiretos do trauma emocional são consideráveis e afetam toda a família, seus filhos, seu cônjuge. O mundo evoluiu muito e não é mais necessário pensar como há 20 anos, de que sua carreira poderia acabar por causa disso.”

 

 

Luciana Gurgel, coordenadora editorial  do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association). 

O conteúdo do MediaTalks by J&Cia pode ser reproduzido no todo ou em parte com citação da fonte e do autor. 

 

 

Leia o especial sobre os efeitos da pandemia no jornalismo, com a participação de correspondentes em sete países 

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