Universidade de Oxford

MediaTalks entrevista Nic Newman, autor principal do Relatório de Jornalismo Digital do Instituto Reuters/ Universidade de Oxford

 

“Há uma esperança de que as coisas melhorem na medida em que os consumidores busquem confiança e contexto, e que a informação primária adquira maior importância no cenário publicitário.”

Entrevista | Nic Newman   

Instituto Reuters para Estudos do Jornalismo Universidade de Oxford 

Por Luciana Gurgel | MediaTalks Londres 

Pesquisador sênior do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo da Universidade de Oxford, Nic Newman é o autor principal do Digital News Report anual, mais abrangente estudo do mundo sobre o comportamento do consumidor em relação a notícias.

Muitos dos dados da edição 2020 do relatório foram coletados antes de o coronavírus atingir países apresentados no estudo. Mas para ter uma ideia do que mudou, o Instituto repetiu partes importantes da pesquisa em seis deles (Reino Unido, EUA, Alemanha, Espanha, Coreia do Sul e Argentina) no início de abril. Essas respostas confirmam os dados da indústria que mostram um aumento do consumo de fontes tradicionais de notícias, especialmente a televisão, mas também algumas fontes de notícias online. 

O professor Newman conversou com o MediaTalks sobre o momento por que passa o jornalismo global.


A pandemia acelerou mudanças que já estavam em andamento. Quais são as principais consequências para o jornalismo?

A pandemia trouxe níveis recordes de interesse pelo jornalismo, mas também tornou a economia muito mais incerta. A publicidade caiu até 50% em algumas publicações e a distribuição impressa foi gravemente afetada. Isso se soma a mudanças estruturais que já haviam reduzido os fluxos de receita − com a maior parte da publicidade digital indo para plataformas tecnológicas gigantes como Google e Facebook. O choque do coronavírus acelerará ainda mais essas tendências, impulsionará o declínio da mídia impressa e incentivará as empresas de mídia a se concentrarem mais em novos modelos de negócios, como assinatura digital e membership.

Também veremos mais demissões, consolidação e corte de custos − e parte disso será devido à  redução do espaço de escritório e a novas formas de trabalhar. Os jornalistas se acostumaram a criar jornais e programas de TV em casa, e as organizações jornalísticas buscarão aproveitar isso para economizar recursos.

“Muitos jornalistas não vão querer voltar às formas rígidas de trabalho agora que as barreiras ao uso de videoconferência e ferramentas de colaboração online desaparecerem da noite para o dia. Os fluxos de trabalho digitais nunca mais serão os mesmos. “

À luz dos efeitos da pandemia, qual modelo de negócio, entre os diversos que têm sido experimentados, tem mais possibilidade de prosperar?

Não existe uma solução única em termos de modelos de negócios, em parte porque as organizações jornalísticas são cada vez mais diferentes hoje em dia. O New York Times está tendo um enorme sucesso com assinaturas (mais de 5,7 milhões de assinantes digitais agora), e o mesmo acontece com veículos de nicho, com modelos e bases de custos muito diferentes. Mas a assinatura não funciona para todos e muitos continuarão apostando na publicidade digital. Há uma esperança de que as coisas melhorem na medida em que os consumidores busquem confiança e contexto, e que a informação primária adquira maior importância no cenário publicitário.

A maioria das empresas de mídia está buscando fontes múltiplas de receita (conteúdo pago, publicidade, eventos, licenciamento, financiamento por parte de fundações, receita de membros e comércio eletrônico). Cada vez mais, veremos mais veículos sem fins lucrativos e subsídios diretos e indiretos de governos em todo o mundo.

Em sociedades mais polarizadas (como Brasil e Estados Unidos), temos visto o público escolher fontes de notícias alinhadas com seu pensamento político − e atacar os opostos. Isso pode se transformar em uma tendência de negócios − veículos claramente tomando partido para garantir público e anunciantes?

Em alguns países, muitos jornais têm uma longa tradição de associação com um ou outro conjunto de crenças políticas − mesmo que a cobertura das notícias seja amplamente imparcial. Nos Estados Unidos, canais de TV a cabo como CNN (à esquerda) e Fox News (à direita) assumiram abertamente posições políticas mais estridentes nos últimos anos − atraindo públicos mais partidários.

A internet também possibilitou o surgimento de uma série de novos sites hiperpartidários de opinião em alguns países, defendendo por exemplo opiniões anti-imigração e de extrema-direita em partes da Europa. Esses sites atacaram especificamente as práticas da mídia convencional e o jornalismo independente. É difícil saber se essas tendências alimentam uma polarização maior ou se as mudanças na mídia são um produto dessas mudanças mais amplas nas sociedades.

De qualquer maneira, estamos vendo mais retorno financeiro e de tráfego para noticiário partidário e baseado em opiniões. Algoritmos de mídia social encorajaram esse tipo de conteúdo no passado, em comparação com notícias imparciais ou baseadas em fatos. Mas nossa pesquisa mostra que em muitos países − incluindo o Brasil − a maioria silenciosa ainda gostaria de cobertura de notícias “sem um ponto de vista específico” em vez de conteúdo que compartilhe de suas opiniões. Isso é especialmente verdadeiro em partes da Europa que têm uma forte tradição de serviço público de radiodifusão.

Em vários países, iniciativas bem-sucedidas de jornalismo independente surgiram recentemente, mas muitos estão lutando para sobreviver após a pandemia. Existe um futuro para eles em termos de capacidade de monetizar e garantir um público significativo o suficiente para atrair patrocinadores ou pessoas dispostas a pagar pelo conteúdo?

A pandemia reforçou a necessidade de um jornalismo independente, confiável − e, nesse sentido, a crise já fortaleceu algumas dessas organizações jornalísticas. Tanto o El Diario na Espanha quanto o Guardian no Reino Unido promoveram a ideia de confiança e independência para aumentar o número de membros no ano passado. O El Diario quase dobrou seu número, enquanto o Guardian acrescentou 50.000 membros permanentes somente em abril.

Por outro lado, essas abordagens provavelmente serão limitadas pelo número relativamente pequeno de pessoas dispostas a pagar pelo jornalismo online. A maioria das iniciativas jornalísticas independentes mais recentes tende a falar para públicos de elite interessados em notícias e inclinados a pagar por isso. Eles têm lutado para chegar a patamares difíceis de alcançar.

Alguns independentes estão tendo sucesso ao tirar vantagem da polarização. Isso é perigoso é isso para a democracia, pelo risco de aumentar as tensões sociais?

Em termos de riscos para a democracia, o principal desafio é a ameaça à independência da mídia. Vemos a confiança nas notícias caindo em muitos países, sendo a polarização política um fator chave. Reconstruir a confiança restaurando o valor dos fatos e das evidências será parte fundamental do trabalho de todos os jornalistas nos próximos anos

Certos países oferecem apoio estatal à indústria de mídia. Mas organizações (como o IPI) temem efeitos sobre a independência, citando o caso da Áustria. Existem mecanismos para combinar o apoio do Estado e a independência?

Na Europa, existe uma longa tradição de apoio estatal à radiodifusão pública, que se estendeu à oferta online nas últimas décadas. No norte da Europa, em particular, a governança de braços abertos garantiu um alto nível de independência editorial − com a mídia pública permanecendo a mídia de maior confiança nesses países.

A Dinamarca e a Suécia também fornecem há muito tempo subsídios à mídia comercial, o que em grande parte proporcionou pluralidade de oferta e mídia de alta qualidade, sem afetar a independência. Ambos os países figuram com níveis relativamente altos de confiança em nossas pesquisas.

Creio em mais subsídios públicos para a mídia comercial nos próximos anos, especialmente para apoiar organizações locais que têm sido mais desafiadas − e há bons modelos de governança para construir nesse sentido. Acho que veremos uma combinação de redução de impostos e subsídios para incentivar a produção de jornalismo de interesse público − e financiamento para inovação.

Mas você está certa em destacar os perigos. Existem muitos outros exemplos em todo o mundo onde os políticos usam dinheiro do Estado − direta ou indiretamente − para influenciar ou controlar a agenda da mídia e evitar o escrutínio.

A forma como os jornalistas usam o Twitter tem sido criticada. O TikTok enfrenta desconfiança e ameaça de banimento. Que ameaças e oportunidades as redes sociais representam para o jornalismo de qualidade? Existem bons exemplos de seu uso para envolver novos públicos, como têm feito a BBC e o The Washington Post?

O TikTok é apenas a mais recente manifestação de uma plataforma gerada pelo usuário, onde as pessoas podem dizer o que gostam e onde a publicação de informações foi democratizada. Não é uma plataforma jornalística, mas é onde as pessoas discutem agora questões como coronavírus, #blacklives matter e mudanças climáticas. Junto com o Facebook e o YouTube, as notícias costumam ser acidentais e a experiência geralmente carece de contexto.

Isso levantou desafios para os consumidores em saberem em que ou em quem acreditar, mas também para os jornalistas saberem como interagir em uma plataforma que nem sempre é confortável para eles. Minha opinião é que as empresas de mídia precisam concentrar-se mais no valor que trazem aos consumidores e na construção de relacionamentos profundos com os consumidores ao longo do tempo.

A questão de como eles interagem com as redes sociais e como podem usá-las para amostragem ou distribuição é secundária. Acho que estamos vendo mais editores reconhecerem essa mudança (veja o New York Times saindo das notícias da Apple e outras saindo do próprio Facebook). O uso de plataformas continuará sendo importante, mas as organizações não devem ser dependentes da forma como eram.

Há uma preocupação com o futuro dos empregos na indústria de notícias como resultado da crise econômica e da tecnologia. Os profissionais da mídia e organizações (como sindicatos e entidades comerciais) estão na direção certa em sua busca por soluções, alinhados ao novo contexto?

A necessidade de cortar custos irá acelerar as mudanças para automatizar partes do processo jornalístico, mas também estamos vendo maior valor vindo do conteúdo mais diferenciado, áreas que não podem ser automatizadas por máquinas. A oportunidade   será usar a tecnologia para agilizar os fluxos de trabalho e tornar mais fácil para o público encontrar conteúdo relevante − permitindo que os jornalistas se concentrem em contar histórias ainda melhores e mais atraentes. O jornalismo precisa abraçar a tecnologia para elevar a qualidade, não para reduzir.


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Luciana Gurgel,  Coordenadora editorial  do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association). 

luciana@jornalistasecia.com | @lcnqgur 

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